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Ato de amor entre povos

Ato de amor entre povos

Por Eliane Potiguara

BOCA VERMELHA, guerreiro das cordilheiras
cansado… Repousava adormecido sob o orvalho.
Abriram-lhe os olhos rubros raios solares,
aromas silvestres, canções da mata.
Era Cunhataí – trêmula – errante das águas,
Envolta em folhagens, flores mas sem abrigo…
Cantou-lhe em voz alta e compassada,
uma canção de amor… Mas sem destino:
(porém ele nada dizia e tudo entendia)
– Desperta JURUPIRANGA!
Vem me ver que hoje acordei suada.
Benzo
com o sumo de minha rosa aberta, enamorada,
as manhãs de delírio, completamente cansada
Vem, que te sonhei a noite toda:
Puro, te revelando nas águas do Orenoco,
Sorrateiro, espreitando o massacre de Potosí
Vem, que te sonhei na noite pela PAZ
E teus dedos velozes, a guarânia, tocavam
as vitórias felizes do Império Inca.
Teu rosto estranhava a luz que me envolvia,
porque – recuperado – todo o estanho eu trazia.
Vem, que vou me pintar com urucum
Vou me encher de mil colares
pra te esperar pro ritual
Tenso
está meu corpo ofegante e
penso
no teu cheiro de homem,
no teu corpo de homem,
que me assanha e me esquenta.
Me senta a teu lado,
me toca c'oas mãos
poéticas, tão grandes e musicais
Me espera na hermosa Ponta Porã
E faz tua amante se sentir cunhã
Me roça
Me faz a palhoça
pra eu morar.
Me afoga em teus beijos,
teus quentes desejos
pra que eu veja
um pituã pra nos cantar
Me traz os teus cânticos
Me grita aos ouvidos
compõe a cantiga
que me faz tua AMIGA…
E te deitas em meu colo
que eu toda me enrolo
em teus cabelos românticos
Me aponta teus ventos brabos
de um país roubado,
de tanto sangue derramado,
chamando um xaxado
pro gozo de amar
Que vou bebendo
com muita cadência
o fogo que expele do teu olhar
E nesse momento teus beijos ardentes
explodem contentes
queimando meus lábios,
meus tão fartos lábios
que te fazem delirar
Ah!… Me traz teus quenachos
Pra que eu te dê meus penachos
Assim… Vou-te levando aos Tabajaras
Lá, dormiremos ao som das araras
testemunhando o amor, a oiticica sagrada.
E ungiremos com óleo todas as nossas feridas
Então, tomaremos o mel da manhã
pra que todos os antepassados renasçam
E olharemos pro céu do amanhã
pra que nossos filhos se elevem
e beberemos a água do carimã
pra suportar a dor da Nação acabada
E os POTIGUARAS, comedores de camarão
que HOJE – carentes
nos recomendarão a Tupã.
E te darão o anel do guerreiro – parceiro
E a mim?
Me darão a honra do Nome
A ESPERANÇA – meu homem!
De uma pátria sem fim
agora, chamego!
me cheira,
me faz um churrasco,
me dá chimarrão,
uma saia de chita,
mais um chocalho bonito
pra Zamacueca dos Andes
pro Toré do
Reparte essa carne-de-sol,
esse baião temperado
que eu tô danada assim…
de amor por esse diabo.
Me dá açaí geladinho
uma rede quentinha
pra nos sonhar agarrados
nas libertas Ilhas Galápagos
Mas Zanzo,
zonza,
ao som do zabumba
ao som das zampoñas,
sob o azul do
Benzendo teu coração
Mas chora teu charango latino
tua lhama andina, pelos cantos da cidade,
pelas cidades sem flor
Chora meu ximango sofrido
Porque estou triste aqui.
E juntos, num só instante,
depois de tanto amor incessante
perceberemos INQUIETOS aqui,
o JURUPARIPINDÁ
a separar a todos os loucos Amantes.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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