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Batalhando juntas, nós ainda vamos gozar a liberdade!

Batalhando juntas, nós ainda vamos gozar a liberdade!

Contra a opressão do esporro, a liberdade do gozo

Por Leticia Bartholo 

Você devia escrever sobre o ejaculador público  – disse-me ontem Camile.

Eu disse a ela que tentaria, mas no mesmo momento tomou-me a sensação de silêncio. A mesma que senti, quando não pude sequer comentar sobre Bertolucci e seu estupro embalado por tango em Paris. É que a violência sexual às vezes choca a tal ponto que silencia. A garganta quer gritar, mas emudece perplexa.

O meu primeiro contato com ejaculadores públicos se deu ainda menina. Morávamos na 703 Sul, em Brasília, e os chamávamos de “tarados”. Cuidado, dizíamos umas às outras, parece que tem um tarado ali atrás da árvore. Os tarados eram aqueles homens que observavam-nos brincar e então tiravam o pau pra fora e começavam a se masturbar correndo atrás da gente. A gente corria mais rápido e sempre achava um lugar seguro para se esconder.

Mas nem sempre há lugares seguros que nos livrem do esporro. Esporro não é palava boa, todo mundo sabe disso. E o esporro persegue a condição feminina. Nos esporram quando nos submetem, quando nos cerceiam, quando nos abusam. O rapaz, profissional no tema, esporrou na moça. E então veio um juizeco branco e rico e esporrou seu veredito torpe.

O que não sabem os tristes esporradores de plantão pro azar nosso e deles, é a delícia da natureza do gozo. Do gozo solitário ou conjunto. Do gozo afetivo. Do gozo que não se acovarda. Do gozo de um abraço verdadeiro no parceiro, ou num irmão. Ou na parceira e na irmã, como for mais doce.

E que saibam: nenhum esporro vai calar nosso gozo. Porque, batalhando juntas, nós ainda vamos gozar a liberdade. Anexe-se este aviso nos autos: nosso gozo de luta um dia há de calar a opressão do esporro. E não é preciso dizer assim seja, porque certamente assim será.

Leticia Bartholo

ANOTE:

Texto de Leticia Bartholo – Socióloga. Gestora Federal. Mãe de uma menina e de um adolescente.

Arte: PXEIRA – Sociólogo. Rabiscador. Pai de dois meninos.

[authorbox authorid=”” title=”Sobre a Autora”]

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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