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Carta a Aldevan Baniwa: O brilho da floresta

Carta a Aldevan Baniwa: O brilho da floresta

José Ribamar Bessa Freire

“Acalme seu coração… o rio corre… os pássaros voam… os peixes se alegram e fazem o dabacuri… Que nossos avós te recebam no dabacuri do infinito.”

Rosi Waikhon, escritora indígena (19/04/2020)

Querido Aldevan, escrevo-te uma carta que você não lerá.

Assim mesmo te conto que vivo em frente a um parque arborizado, com três lagos, que permanece fechado há mais de um mês. Lá, crianças, entre elas minhas netas, alimentavam gansos, patos e pombos até antes da quarentena.   Na madrugada de domingo (19), os bichinhos uivavam. Não grasnavam, nem arrulhavam: uivavam, bem dentro do meu quarto, dos meus ouvidos, como lobos famintos. A fome deles e a tua partida não me deixaram dormir. Insone, comecei a pensar: como seria teu sepultamento no Cemitério do Tarumã, em Manaus? Numa vala comum aberta por uma retroescavadeira? Ou numa cova individual? Sozinho, longe dos familiares como exige o protocolo de segurança?

A insônia me levou a viajar no espaço e no tempo: Belém, ano passado, um evento acadêmico. Na ocasião, no ônibus, sentei-me ao lado da minha amiga Ana Carla, mãe das tuas filhas Kaina, 19, e Wina, 17 anos, estudantes uma de Design, a outra de Educação Física. Ela me falou de você com carinho imensurável: que se conheceram na área Waimiri-Atroari, que viveram uma bela história de amor, que foram juntos para o doutorado dela em Linguística, em Tucson, no Arizona, terra dos parentes Navajo e Hopi, autores de obras de arte expostas no museu etnográfico localizado no campus da Universidade. Lá, vocês residiram durante quase cinco anos. Lá nasceram as meninas, frutos da relação amorosa.

COMBATE ÀS ENDEMIAS

Nascido na ilha Oscarina, Tapuruquara, no Rio Negro (AM), de pai Baniwa e mãe Tukano, familiarizado com várias línguas, incluindo o nheengatu e o português, você arrasou: “Chegou sem falar ‘good morning’ e em pouco tempo dominava a língua melhor do que eu” – me disse Ana Carla. Novos amigos gringos te levavam a um lugar para pescar trutas e se elas não prestavam para fazer quinhapira, pelo menos matavam as saudades do jaraqui e da farinha. Quando retornaram ao Brasil, com as duas meninas, depois de um tempo desempregados, a Ana foi trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E você?

Dentro do ônibus, continuei ouvindo o relato da tua trajetória, o curso feito na Universidade Paulista (UNIP), a contratação como agente de combate às endemias pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). Teu destino começou a ser traçado ali, como guerreiro na luta contra a malária, a leishmaniose e outras doenças endêmicas em comunidades rurais, cuidando da saúde dos moradores ao longo da BR-174. Há quatro anos, você foi morar com uma irmã: “separados, mas com projetos de vida em comum para nossas filhas e contatos quase diários. A cada conquista delas, ele vibrava” – contou Ana Carla.

Foi aí que ela, ainda no ônibus, me deu um exemplar do livro “Brilhos na Floresta” escrito em quatro línguas por Noêmia Kazue, Takehide Ikeda, a própria Ana Carla e você, com ilustrações de Hadna Abreu. Entrei em transe. Trata-se de livro encantador, que relata a entrada noturna na floresta em busca de fungos bioluminescentes. Minutos após apagarem as lanternas, um espetáculo deslumbrante: as árvores brilhavam. “Por que será que nunca vi isso antes?” – perguntou o biólogo Ikeda. Tua resposta foi uma lição magistral: “Porque você nunca apagou a lanterna. Os cientistas deviam saber que nem tudo que a gente procura pode ser encontrado iluminando. Às vezes, para ver, é preciso desiluminar”.

Dessa forma, você se tornou escritor e participou com os demais autores do lançamento do livro em São Gabriel e em Manaus, distribuindo autógrafos. Escrevi resenha sobre o livro e nos tornamos – você lembra? – amigos no Facebook. Foi nesse espaço que tomei conhecimento do teu calvário e de tua morte pelo coronavírus.

MORTE ANUNCIADA

Houve troca de mensagens com teus amigos desde a quinta-feira, 9 de abril. Transcrevo aqui algumas postagens.

Aldevan – A histeria, o vírus merda, a gripezinha tá só aumentando em nosso estado, todo cuidado é pouco, previnam-se. Sigam a orientação do SUS e esqueçam o Bozo. Tou na linha de frente, quarentena a todos, esquerda ou direita, honro meu juramento. Já perdemos colega pra COVID-19, mas a luta continua.

Carlos – Brother, tem receio de estar na linha de frente não? Perigoso isso.

Aldevan– Brother, confesso que não, minha preocupação são [sic] com meus velhinhos (…)

Carlos – Tu vai morrer…

Aldevan (com ironia) – Carlos Batista, “no meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”. Aí dentro no Bozo e bolsomínios. Vai que é tua, Carlos, faz arminha aí.

Você tentou várias vezes fazer o teste para o Corona, sem sucesso. Na quarta (15) você relata que, com febre, saiu em busca de atendimento e receitaram dipirona. Na quinta (16), uma piora: “Tou bem não, tou muito cansado e a febre continua. Quando faço algum esforço vem aquela ânsia de desmaio”. Na sexta (17), o quadro se agravou exigindo internação no Hospital João Lúcio, com remoção no dia seguinte para a UTI do Hospital Tropical. Entre idas e vindas, uma postagem revela que os testes rápidos enviados pelo Ministério da Saúde estão sendo usados para atender “favores políticos”:

“Um colega de plantão em uma unidade de saúde materno-infantil presenciou uma família inteira chegar para ser testada, de não profissionais, somente por serem amigos VIP (…) os profissionais, que estão na linha de frente, não têm direito a atestados ou afastamento (…) Proteger esses profissionais e seus pacientes não gera lucro POLÍTICO! Atender aos conhecidos que financiarão campanhas eleitorais gera benefícios”.  

 OS ESPÍRITOS DA FLORESTA

Domingo, 19 de abril, a FVS-AM informa que o caixão de Aldevan Brazão Elias, de 46 anos, desceu na cova do cemitério Parque Tarumã, em Manaus, às 18h22. Com ele, foi sepultado outro agente de saúde, Clauber da Silva Cavalcante. “Já morreram quatro agentes de endemias em Manaus” – informou ao Instituto Socioambiental (ISA) o teu irmão mais velho, André Brazão, ele também agente de saúde, chamando atenção para o simbolismo da data:

Hoje é um dia marcado pra eternidade pra minha família (…) justamente seu enterro é no Dia do Índio, talvez seja uma grande homenagem dos espíritos da floresta”.

Nosso amigo pagou com a vida pela incompetência e maldade de pessoas que estão no lugar errado” – escreveu Benjamin Baniwa.

Muito triste isso! Fico imaginando que não égripezinho como desgoverno tenha defendido” – registrou Artur Waliperi Baniwa no seu delicioso português.

Aldevan, para mim e para meu povo Baniwa, será lembrado assim, como defensor da vida de muitas pessoas atacadas pela Covid-19” – declarou André Fernando.

Meu amigo Aldevan Baniwa, sentirei saudades. Lutou contra o genocídio e morreu vítima dele” – comentou a jornalista Verenilde Pereira.

Ah, é importante te lembrar: a Rosi Waikhon guardou sementes de baraturi, fruta regional que você pediu para plantar no teu quintal. Ela avalia que o teu encontro com a Noêmia consolidou o diálogo entre saberes vitais para a Amazônia: o da academia e o dos indígenas.

O que fazer quando a gente perde pra Covid-19 o amigo que te guia no escuro da floresta? O que fazer neste luto escuro sem você, amigo Aldevan? Nem velório, nem uma flor, nem uma vela a gente pode acender hoje” – lamentou Noêmia, na hora do enterro.

Bem, meu amigo, os recados aqui estão dados. Preferi usar o espaço com essa carta do que ocupá-lo com o tema do dia: a luta pela carniça do poder de dois cadáveres políticos, num espetáculo deprimente em que o presidente da República fala quase uma hora sobre ele, ele, ele, sem mencionar uma só vez a calamidade em que está mergulhado o país, tendo ao seu redor outros urubus, entre os quais o palerma do ministro da saúde. É preciso desiluminar o Brasil para que o gado deixe de ser tangido ao abismo por pastores inescrupulosos.

Um sinal de esperança: no dia seguinte ao teu sepultamento, o Israel Dutra Tuyuka, o Põrõ – lembra dele? – colava grau como médico na Universidade do Estado do Amazonas e às 19 horas já estava dando seu primeiro plantão na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no mesmo bairro Tarumã, onde você foi sepultado. Olha que coincidência: ele tem 46 anos, a tua idade. A luta continua.

  1. S. – Brother, se por acaso na festa do dabucuri do infinito você ler essa carta – sei lá, a gente nunca sabe! – avisa aos teus três amores Ana, Kaina e Wina que eu e outros leitores enviamos beijos afetuosos para elas, privilegiadas pela convivência com alguém como você. Ah, para tua informação: diante das reclamações, a administração do Parque deu comida aos patos e gansos, cessou o uivo desesperador.

José Ribamar Bessa Freire – Professor. Cronista. Gestor do site TaQuiPraTi. (http://www.taquiprati.com.br/)

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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