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Correntão: vilão do desmatamento ilegal é vendido na internet com dicas para evitar ficalização

Vilão do ilegal, correntão é vendido na internet com dicas para evitar fiscalização

Sites especializados em comércio on-line oferecem o produto, que mata animais e destrói rapidamente a floresta; Câmara discute proibição do acessório em todo o país

– Para fazer esse tipo de serviço, cobramos R$ 350 a hora. Já vou com dois tratores e dois ajudantes e a gente derruba tudo.

Assim explica um dos fornecedores on-line de correntões ouvidos pelo De Olho nos Ruralistas. Além dessa eficiência, o anunciante do Mato Grosso garante blindagem contra a fiscalização: “Para tudo tem um jeito, fica tranquilo. A gente entrega o trabalho”.

Na mesma linha, outro comerciante de São José do Rio Preto (SP) explica melhor a tática:

– Tem que ir trabalhando devagar, vai falando com os vizinhos, todo mundo se ajuda. Se tiver fiscalização, pede para uma fazenda avisar a outra e qualquer coisa, fecha a estrada com um trator, arranca uma peça lá e diz que quebrou. Nunca vi dar problema.

Ao mesmo tempo em que garante blindagem na fiscalização, este mesmo comerciante não promete a sobrevivência da fauna do local, admitindo a mortandade de animais. “Ah, sempre acontece, principalmente se for mata alta, não dá pra ver e não tem como ficar descendo do trator para olhar, precisa ser rápido”.

Um vídeo mostra como o correntão funciona. As correntes são fixadas em dois tratores, que percorrem o mesmo percurso paralelamente, arrancando toda a vegetação e matando toda vida animal. Utilizando esse método, é possível desmatar até dez campos de futebol por dia.

NA INTERNET, VÁRIOS TIPOS E PREÇOS

Anúncios de correntões  são encontrados facilmente na internet em sites como OLXMercado Livre e MFRural, este último especializado em produtos para o .

Os anunciantes são de diversas regiões, mas predominantemente Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Goiás e Tocantins. Os valores são imprecisos, não há uma escala respeitada entre os vendedores e podem variar. Encontramos valores de R$ 220 o metro, até R$ 670. Peças inteiras chegam a custar R$ 34 mil.

 

correntão
Os correntões devastam rapidamente a mata. (Mayke Toscano/Gcom-MT )

Outro anunciante informa que pode facilitar a compra de correntão nivelador “com discos recortados, triturador de palhadas, niveladora, roçadeira, incorporadora de sementes, correntão com navalhas”, inclusive usados. E ele completa:  “Financiamos os equipamentos, Finame e BNDES”.É possível verificar, nos anúncios, variantes do mesmo produto. Alguns comerciantes divulgam os correntões com “facas”, tratado por um dos vendedores como “a evolução das correntes niveladoras, que permite alta performance no trabalho”. Um vídeo mostrando a técnica de utilização da corrente acompanha a informação.

Trata-se da Agência Especial de Financiamento Industrial (Finame) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, um modelo de financiamento para a compra de equipamentos e máquinas nacionais e estrangeiros, dentro de normas ambientais.

PROIBIÇÃO NO MT FOI DERRUBADA PELA JUSTIÇA

Houve várias tentativas, nos últimos anos, de proibir o correntão para o desmatamento. O equipamento chegou a ser proibido no Mato Grosso para a supressão de vegetação pelo Decreto Estadual nº 420, de 05 de fevereiro de 2016, sendo considerado crime ambiental. Outro decreto legislativo, de julho do mesmo ano, sustou os efeitos da legislação.

O Ministério Público Federal do Mato Grosso questionou a constitucionalidade do decreto, usando argumentos de uma nota técnica do Instituto Brasileiro do e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama): o equipamento causa danos irreparáveis à fauna e à flora, em especial as ameaçadas de extinção; gera agravamento de processos erosivos do solo; e ainda pode incentivar o desmatamento ilegal. O juiz Cesar Augusto Bearsi negou o pedido.

Na Câmara, um projeto de lei de 2016 procura deixar clara a suspensão do equipamento, incluindo a proibição tanto no Código Florestal, de 2012, como na Lei de Crimes Ambientais, de 1998. A proposta está parada na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural  da Casa, com sucessivas mudanças de relatores. O último, nomeado em agosto de 2017, é o deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), um dos expoentes da bancada ruralista.

Para o Ibama, não há dúvidas de que o correntão é usado com intenções predadoras. Em 2015, os fiscais do órgão pararam uma ação que desmataria ilegalmente, com o equipamento, 1.500 hectares. Esse caso é apenas um dos vários desmatamentos ilegais ao longo dos anos.

ANOTE AÍ

Fonte: De olho nos ruralistas

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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