Cruviana: Lenda Indígena contada no Piauí

Contam os mais antigos, desde a época em que os índios habitavam o Piauí, que a Cruviana aparece comumente em noites frias do nosso estado. Sua presença normalmente é indicada por um vento muito gelado, que percorre as ruas durante a madrugada.

Por José Gil Barbosa Terceiro/Causos Assustadores do Piauí

Contam os mais antigos, desde a época em que os índios habitavam o Piauí, que a Cruviana aparece comumente em noites frias do nosso estado. Sua presença normalmente é indicada por um vento muito gelado, que percorre as ruas durante a madrugada.

Os índios consideravam Cruviana a deusa do vento e da neblina, que à noite se transforma em uma suave brisa, acompanhada de nevoeiro, e diziam que esta, quando encontrava um forasteiro nas terras escolhidas para abençoar com a sua presença, envolvia este, encantando-o, fazendo com que nunca mais quisesse voltar à sua terra natal, permanecendo para sempre no lugar.

A divindade seria, assim, a deusa do vento, esposa do amanhecer. Não é a toa que em muitas cidades sucede uma brisa noturna e nevoeiro altas horas da madrugada, que, por vezes, dura até as primeiras horas da manhã. É aí que a deusa se mostra em ato de amor junto a seu marido.

Em um post no perfil do facebook de Evonaldo Andrade, escritor piripiriense, Teles Santos, também natural de Piripiri contou uma história curiosa. Disse que sua mãe contava que “certo viajante hospedou-se numa casa assim para passar a noite, recomendaram que se protegesse bem da tal cruviana que atacava depois da meia noite. Ele preparou-se com um facão debaixo da rede, e, lá pelas tantas da madrugada, ele acordou e, olhando pela janela embaçada pela neblina, avistou um vulto. Não pensou duas vezes, partiu pra cima do bicho e desferiu algumas facadas em desespero, e só parou quando viu que atingia a sua burrinha, que ele pensou fosse a bendita Cruviana”.

Ernâni Getirana, escritor de Lendas de Pedro II, define a Cruviana nos seguintes termos:

CRU . VI . A . NA: corruptela de corrupiana ou currubiana. Fenômeno segundo o qual há queda de neblina frígida e vento. “Cruviana não se vê, se sente”. “Pôr-do-Sol vermelho é sinal de que a noite vai ter cruviana”. Cruviana é a deusa do vento, mulher do alvorecer. Chuvisco, garoa, vento frio acompanhado de chuva, frio intenso. Na cidade de Pedro II tem cruviana, sim senhor.

É fato que Pedro II, por ser uma cidade de clima diferenciado no Piauí, manifesta o fenômeno com maior frequência que outras cidades de nosso estado, mas muitas vezes a tal Cruviana é vista visitando outros municípios. Talvez por isso, apesar das dificuldades, muitos piauienses não abandonem sua cidade ou município, que amam de paixão.

Fontes citadas pelo autor:

CRUVIANA (verbete). Dicionário Informal. Disponível em: Dicionário Informal; Acesso em 18 de julho de 2019.

LENDAS INDÍGENAS DE RORAIMA, quarta-feira 22 de abril de 2015.  Disponível em Clube Brasileiro de Trens Fantasmas; Acesso em 18 de julho de 2019.

GETIRANA, Ernâni. Tenda da Cruviana: Pedro II PI.; Acesso em 18 de julho de 2019.

SANTOS, Teles. Comentários à postagem de Evonaldo Andrade publicada no facebook em 16 de julho de 2019, às 21:38 horas. Disponível em: Evonaldo Andrade;.  Acesso em 18 de julho de 2019.

 
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revista 115

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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