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Dione Torquato: primeiro secretário de juventude do CNS

Dione Torquato: primeiro secretário de juventude do CNS

Nasci na Floresta Nacional de Tefé-AM, sou filho e neto de seringueiros. Desde pequeno ouvi falar de Chico Mendes e de sua luta contra a destruição da floresta amazônica. Histórias de coragem e resistência para defender seu território ecoavam em meus ouvidos. 

Por Dione Torquato

Sempre sonhei em conhecer sua cidade e sua casa, até que, em 2016, tive a felicidade, tive a honra de viver esse sonho, visitar Xapuri e a casa de Chico Mendes, na companhia de sua filha Angela, que conheci em Belém do Pará, no ano de 2013. 

Chico, obrigado por ter lutado por nós. Obrigado por ter falado ao mundo sobre a importância de proteger a Amazônia e por dar voz aos nossos povos e territórios. Eu gostaria muito de ter tido a chance de conhecer você, para te dizer, pessoalmente, que a sua luta não foi em vão.  

Hoje, aos 36 anos de idade e com duas filhas adolescentes,  tenho a cada dia mais certeza de que fiz o que tinha que ser feito ao dedicar a minha vida a honrar sua história e a lutar pela continuidade de seu legado, que continua a inspirar muitas pessoas, especialmente nós, que ainda somos jovens.  

Você está presente em cada semente plantada, em cada árvore protegida e em cada atividade de promoção de uma cultura de conservação e respeito à natureza. Você nos ensinou a amar e a respeitara a Amazônia, a lutar por nossas terras e por nossa dignidade. 

Passados todos esses anos e diante de tantos desafios, cabe a cada um e a cada uma de nós continuar com sua luta, pois entendemos que jamais haverá igualdade social enquanto houver opressão sobre nossos povos. 

Que não haverá justiça e inclusão enquanto nossos territórios estiverem sob o poder do grande capital. Que não há como construir sonhos enquanto a nossa liberdade estiver limitada pela ausência do Estado com suas políticas públicas. 

Essa compreensão que hoje temos do mundo é porque lá atrás você, Chico, nos ensinou que outros mundos são possíveis quando lutamos por liberdade, igualdade e justiça socioambiental. Seu exemplo de coragem e amor pela vida jamais será esquecido. 

Viva você, Chico Mendes!

Dione Torquato – Primeiro Secretário Nacional de Juventude do Conselho Nacional das Populações Extrativistas. Atual Secretário-Geral do CNS. 

 
 
 
 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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