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Dos mistérios antigos…

Dos mistérios antigos…

Eu fui emitida do poder,

e eu vim para aqueles que refletem sobre mim,

e eu fui encontrada entre aqueles que me buscam.

Olhem-me, vocês que refletem sobre mim,

e vocês ouvintes, ouçam-me.

Vocês que estão me esperando, tomem-me para si próprios.

E não me expulse da sua visão.

E não faça a sua voz me odiar, nem a sua audição.

Não seja ignorante a meu respeito em qualquer lugar ou qualquer hora. Esteja em guarda!

Não seja ignorante a meu respeito.

Pois eu sou a primeira e a última.

Eu sou a estimada e a rejeitada.

Eu sou a prostituta e a sagrada.

Eu sou a esposa e a virgem.

Eu sou a (mãe e) a filha.

Eu sou os membros da minha mãe.

Eu sou a estéril

e muitos são seus filhos.

Eu sou aquela cujo casamento é grandioso,

e eu não tomei um marido.

Eu sou a parteira e aquela que não dá à luz.

Eu sou o consolo das minhas dores do parto.

Eu sou a noiva e o noivo,

Eu sou o consolo das minhas dores do parto

(…)”

Excerto de um poema gnóstico encontrado da biblioteca de Nag Hammadi, no Alto Egito, no qual um/a divindade salvador/a da humanidade discorre sobre uma série de afirmações paradoxais sobre sua natureza feminina.

Fonte: Mistérios Antigos

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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