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Em tempos obscuros de pandemia

Em tempos obscuros de pandemia

Em tempos obscuros de pandemia

Em tempos obscuros de pandemia, a dureza da vida incita uma dose de poesia.
Difícil é encontrar alguma brecha para o sentimento leve fluir.
Parece que as imagens e palavras ancoram no fundo do oceano do medo.
Para buscar a poesia, nada melhor do que sonhar.
Inscrevi-me em um curso nessa época de claustro forçado.
Graduação em Sonhos.
As aulas acontecem sempre mais ou menos no mesmo horário, entre vinte e três horas e seis e meia da manhã.
Gratuitas, por sinal. Basta fechar os olhos e deixar acontecer. Se de poesia o sonho carecer, não faz nenhum mal.
Uma revirada na cama costuma ser o suficiente para encerrar o tema na aula e dar início a outro completamente diferente.
Consegue-se realizar uma íntima proeza. Viaja-se para dentro de si.
Visita-se aquela criança inocente e feliz que adormeceu bem dentro do eu, com suave delicadeza.
Abraça-se quem um dia se foi deixando a angústia da grata saudade. Conhecem-se lugares novos e encantadores que, de tão intensos, parecem de verdade.
Ao término da jornada de aulas, inicia-se mais um dia.
Ainda que lá fora o mundo continue rude ao extremo,
dentro da alma sopram-se sonhos que se convertem em uma singular dose de poesia.

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Há cinco anos, faça chuva ou faça sol, milhares de estudantes, profissionais da educação, sindicalistas, militantes do movimento social, pessoas que formam opinião e assinantes recebem, mensalmente, a edição impressa da nossa revista Xapuri.

Em maio, completamos nossas 67 edições ininterruptas, compondo um mosaico mensal de informação socioambiental para formar consciências, fortalecer resistências. Desde que começamos, em outubro de 2014, essa jornada só foi possível por uma única razão: solidariedade. É graças à contribuição solidária de nossos parceiros, parceiras e assinantes que seguimos firmes por aqui, depois de tantas e tantas crises.

Agora, neste momento em que o mundo, o Brasil, cada qual de nós enfrenta a tragédia da pandemia do coronavírus, para que a Xapuri continue acontecendo, precisamos muito contar você. Como? Um jeito prático é você fazer uma assinatura solidária. Você pode assinar a revista Xapuri via site: https://lojaxapuri.info/revistas/ ou diretamente conosco, via zap: https://whats.link/lojaxapuri

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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