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Eu não morri

Eu Não Morri – 

Por Virginia Berriel – 

Em 2021, ano desafiador que jamais esqueceremos, quase perdemos o prumo. Fomos lançados à barbárie política, econômica e social, sem limites e sem o pudor daqueles que desgovernam e destroem o país. Fomos desafiados, atacados e ignorados. A maioria dos brasileiros foram abandonados à própria sorte. Em 2022, além de nos reinventar, precisamos ter muita fé, esperança e ir à luta sem medo, disputar mentes e corações. Certamente será um ano como se estivéssemos numa montanha russa.

Vivemos um turbilhão de emoções, tristeza e muita dor neste ano. Perdemos muitas pessoas querida para a Covid-19. A doença não foi embora, está presente e de olho naqueles que teimam em não se cuidar e ainda colocam a vida dos outros em risco.  Para piorar temos que aguentar o celerado que desgoverna o país. O tempo todo ele demonstra abertamente que quer a morte dos brasileiros. Agora, ataca os especialistas e coloca em risco a vida de crianças. É contra a vacinação delas, que já ocorreu e ocorre em vários outros países.

A Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, autorizou no dia 16 de dezembro, a aplicação da vacina para a Covid-19, da Pfizer, em crianças de 5 a 11 anos. E daí começou mais uma guerra, desta vez contra os especialistas e técnicos, que participaram da avaliação para a liberação da vacina.

O governo cobrou o nome dos especialistas em uma live, ele tem o apoio do Ministro da Saúde, que afirmou em entrevista: “não havia nenhum problema em divulgar o nome dos profissionais porque são servidores públicos”. Logo os especialistas passaram a ser ameaçados, inclusive de morte.

Em agosto deste ano contraí a Covid-19; eu e meus filhos. A doença evoluiu rapidamente e fiquei internada por dezoito dias consecutivos na UTI do Hospital Quinta D’or. Tentei apagar algumas cenas da memória, mas é impossível. Evitei escrever sobre os longos dias e semanas de internação. Durante o período de internação e exceto os dias de alucinação, para não enlouquecer, eu fazia o relatório do meu estado de saúde.

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A Luta pela Vida

Como ignorar toda essa barbárie? A Covid-19 me levou à beira da morte, acho inclusive, que ultrapassei a porta, fui para o outro lado e voltei. Cheguei a essa conclusão porque nos primeiros cinco dias de UTI eu tive alucinações. Tudo girava a minha volta e num daqueles dias dolorosos, lembro que comecei a caminhar, tropeçando, passei por vários corredores, cheios de portas. Em alguns daqueles corredores eu vi crianças, muitas crianças! Noutros tinham uns bichos medonhos, eu não conseguia ver direito o que eram, mas vi que tinham chifres, eram coisas grandes e assustadores. Eu saí dali porque uma mulher vestida de branco me puxou pela mão, abriu uma porta azul e entramos por um caminho todo iluminado…

Passei horrores com essa doença; no hospital, mas também antes de chegar nele. Já que quando retornava do laboratório, após fazer o PCR, eu travei na rua, não conseguia andar e nem respirar. Achei que fosse morrer ali, sufocada no meio da rua Mariz e Barros. Corri para o hospital e queria apenas um remédio, precisava respirar e fui direto para a UTI. Segundo os médicos somente 30% do meu pulmão funcionava. Depois veio o desespero e medo de ser entubada, eu só queria sair dali. Meus dois filhos estavam em casa com Covid-19, eles contraíram de mim, a forma mais leve da doença, mas tiveram febre, perderam o paladar e o olfato, reclamavam de dor de cabeça persistente. Em casa, sozinhos, uma tragédia!

A sensação de sufocamento é algo terrível, imaginem isso nas crianças. A minha filha, em agosto, ainda era menor de idade. Sempre foram muito dependentes. Meu desespero maior era porque eles estavam sozinhos e não podiam receber visitas em casa. Foram os piores dias da minha vida.

Ainda tive que lidar com as mazelas ocorridas no hospital. Existem bolsonaristas em todos os lugares e no hospital também. Uma delas foi a fisioterapeuta que insistia em colocar uma máscara que lacrava meu rosto. Ocorre que tenho fobia, avisei que não conseguiria, que precisava de um remédio para relaxar antes de colocar. Foi barra pesada até ela falar bem alto: “que o meu pulmão estava todo estragado e eu não queria colocar a máscara”. Ela falou exatamente assim. Chamei, quase sem poder falar direito, o médico responsável e solicitei que retirassem aquela mulher, que não queria mais aquela fisioterapeuta no quarto. Eu realmente tive medo de morrer ali.

O médico responsável ligava para meu filho e para a Rosa Leal e passava um boletim médico, todos os dias. Meu pânico era que eles poderiam me entubar sem o meu consentimento. Solicitei que os médicos não me entubassem. Falei algumas vezes e insisti: “sou pai e mãe dos meus filhos, não posso morrer”, mas evidentemente, evitava dormir por medo do que poderia acontecer. Lembro que num fatídico dia, o médico chefe da UTI veio me visitar cedo e disse: “se até à tarde a sua saturação não subir você será entubada, não teremos outra saída”. Me desesperei, rezei exausta porque lutava contra o sono, apaguei e até sonhei que estava caminhando numa floresta repleta de flores. Acordei e minha saturação estava subindo.

Eu vigiava e perguntava tudo sobre os remédios, as injeções de três a quatro vezes por dia na barriga, anticoagulante, os furos nos dedos para coletar sangue, o cateter no pescoço, o soro no braço. A luta pela vida e o sofrimento que milhares de brasileiros, vítimas dessa doença passaram, nos tornou sobreviventes. Outros tantos não resistiram e partiram, deixaram os órfãos. Eles, os órfãos da Covid-19 estão por aí, sem nenhuma assistência governamental. Crianças e jovens perderam pai, mãe e familiares. Uma tragédia que poderia ter sido evitada.

O governo ainda ri e debocha dessas pessoas quando desdenha e nega a doença; pior, quando não quer permitir a vacina que foi liberada pela Anvisa para as crianças e certamente algumas dessas crianças são órfãs, não têm mais os pais e familiares. Fica muito evidente que além da ignorância e do negacionismo, o Governo defende explicitamente a morte.

Quando contraí a Covid-19 eu já havia tomado a primeira dose da vacina, a AstraZeneca e também a vacina da gripe. Foi determinante para minha vida a vacina. Ela realmente salva vidas e não é aceitável o comportamento do Governo e de seu Ministro da Saúde em retardar o processo de vacinação das crianças.

Em dezesseis países as crianças foram vacinadas: Alemanha, Argentina, Áustria, Canadá, China, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Hungria, Israel, Itália, Portugal e no Brasil já passou da hora. Ainda mais com a variante Omicron presente.

O Governo precisa ser parado e  afastado. O Ministro da Saúde precisa tomar vergonha na cara e agir. Ambos precisam ser punidos pela omissão, pelos atos que atentam contra a vida dos brasileiros. A Justiça precisa fazer a sua parte, do contrário; será conivente com a morte. Já pesa sobre os seus ombros as 620 mil vidas perdidas para a Covid-19. Todos os especialistas e pesquisadores já disseram que pelo menos 70% das mortes poderiam ter sido evitadas se o governo tivesse agido e comprado as vacinas a tempo. 

Eu preciso usar esse espaço para agradecer, primeiro as amigas Rosa Leal que recebia as ligações do hospital, sempre atenta e preocupada, também a Lucia Capanema, que viabilizou a ida de uma pneumologista para me visitar e ver a minha situação, a Andrea Matos, a Yeda Paura que vieram ao prédio saber dos meus filhos. Preciso agradecer todos, todas e todes que fizeram correntes de oração. Eu sobrevivi graças a primeira dose da vacina que tomei, aos médicos e médicas que cuidaram de mim, as rezas, orações, ao amor e necessidade de cuidar dos meus filhos e de continuar na militância para ajudar a fazer um país melhor.

Penso que nunca foi tão necessário não largar a mão de ninguém, segurar bem firme, não deixar ninguém para trás. Em 2022, vamos precisar de muita sabedoria, estender a nossa mão e os nossos braços, para além dos abraços.

Gratidão imensa é o que sinto. Alegria pela vida e esperança gigante no amanhã.

Virginia Berriel – Jornalista JP22913RJ. Executiva Nacional da CUT. Direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do RJ. Direção do Sinttel Rio. Membra do MHuD Movimento Humanos Direitos. Conselheira do CNDH Conselho Nacional dos Direitos Humanos. 


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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