Segundo Fábio, dirigente estadual do MST, “o circuito tem como principal objetivo o fortalecimento da organização e da consciência dos trabalhadores e trabalhadoras dos acampamentos e assentamentos da Reforma Agrária. Durante a realização do evento, foram realizados diversos trabalhos de base com a população da cidade, e também foi possível construir uma nova relação com os sindicatos da região”.
Para Reizana, assentada no PA-Barreirinho em Unaí, Minas Gerais, o evento representou um importante espaço de reunião de forças dos trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra da região. “Aqui temos companheiros e companheiras em busca de conhecimento. A feira é uma forma de mostrarmos nossos produtos e de reunirmos força junto aos companheiros e companheiras”, disse.
A agroecologia e a questão ambiental foram os temas do segundo dia de feira. Os participantes assistiram a exposição de Renata Navega, consultora da Matres Socioambiental, que apresentou um seminário sobre a construção de um novo modelo de organização de consumo, que inclua a participação das pessoas no planejamento das safras.
Para Barba, morador do assentamento Dom Tomás Balduíno, em Formosa, “a feira é importante, pois mostra que estamos produzindo alimentos saudáveis e da Reforma Agrária. É também uma forma de divulgação do nosso trabalho”.
No terceiro dia, o feminismo foi o tema do debate. Reunidas na praça da Prefeitura de Formosa, as mulheres trabalhadoras da cidade e do campo fizeram um abraço coletivo, cantaram canções representativas do movimento e realizaram uma roda de conversa com Maria Feitosa, do Coletivo de Gênero do MST/DFE sobre o empoderamento feminino e a necessidade de ocupar os espaços que lhes são negados.
Eugênia, de 19 anos, moradora de Formosa, acompanhou os três dias de evento. Para ela, a “feira foi inspiradora, serviu como aprendizado. Aqui temos a oportunidade de comer alimentos melhores, mais saudáveis. O MST está fortalecendo a cultura local”.
De acordo com Fabio, “nessa segunda etapa da Feira, realizada em uma cidade marcada pelo agronegócio, cerca de dez mil pessoas terem passado por ela é o sinal de que estamos conseguindo reforçar os laços entre o campo e a cidade.
Mais de dez toneladas de produtos da Reforma Agrária foram comercializadas, contamos com a participação de cerca de 60 assentamentos e acampamentos, de oito municípios da região do Distrito Federal e Entorno, que engloba o DF, o noroeste mineiro e o nordeste goiano. Isso significou o trabalho direto de mais de 400 produtores rurais”, comemora.
Engajada na defesa do projeto de Reforma Agrária Popular, Reizana destaca sua impressão sobre o sucesso da Feira realizada em Formosa e aproveita para fazer uma crítica contundente aos que pretendem invisibilizar a luta dos trabalhadores Sem Terra.
“O MST representa a luta do povo e a conquista pois é através dele que podemos vender nosso alimento com mais dignidade, sem sermos apagados pela mídia e pelos grandes produtores”.

Como surge o MST
Em 1984, os trabalhadores rurais que protagonizavam essas lutas pela democracia da terra e da sociedade se convergem no 1° Encontro Nacional, em Cascavel, no Paraná. Ali, decidem fundar um movimento camponês nacional, o MST, com três objetivos principais: lutar pela terra, lutar pela reforma agrária e lutar por mudanças sociais no país.
Queremos ser produtores de alimentos, de cultura e conhecimentos. E mais do que isso: queremos ser construtores de um país socialmente justo, democrático, com igualdade e com harmonia com a natureza
Eram posseiros, atingidos por barragens, migrantes, meeiros, parceiros, pequenos agricultores… Trabalhadores rurais Sem Terra, que estavam desprovidos do seu direito de produzir alimentos.
Não apenas nos sentimos herdeiros e continuadores das lutas anteriores, mas também somos parte das lutas que nos forjaram no nosso nascimento. Do sindicalismo combativo, da liberdade política e das Diretas-Já em 1984, quando já em nosso primeiro Congresso afirmávamos que “Sem Reforma Agrária não há democracia”.
Do Boletim ao Jornal Sem Terra
A partir de 1984, com a criação oficial do MST, o Boletim Sem Terra dá um salto qualitativo e se transforma no Jornal Sem Terra. Muda o formato, a amplitude, o editorial e os objetivos. Num momento de nacionalização do Movimento, o jornal passa a ter um caráter mais interno, e se torna um dos principais instrumentos de articulador, de motivador da luta e de formação política a ser realizado nos trabalhos de base, característica que vem tendo desde então.
1° Congresso Nacional
O 1° Congresso do MST, organizado a partir do 1° Encontro Nacional em Cascavel, no Paraná, em 1984, aconteceu durante os dias 29 a 31 de janeiro de 1985. Dele foi tirado como orientação a ocupação de terra como forma de luta, além de ter sido definido os princípios do MST: a luta pela terra, pela Reforma Agrária e pelo socialismo.
Ocupação é a Única Solução
1° Congresso Nacional do MST
29 a 31 de janeiro de 1985
O Movimento teve a clareza política de que era necessário ser uma organização autônoma a partidos e governos. O congresso de 1985 é um marco histórico do MST. Demos uma nova característica da luta pela terra. Saímos de lá convictos de que teríamos que partir para as ocupações, e construímos o lema “Terra para quem nela trabalha” e “Ocupação é a Única Solução”.
Em maio do mesmo ano, em menos de três dias mobilizamos mais de 2500 famílias em Santa Catarina, em 12 ocupações. Em outubro, o Rio Grande do Sul ocupou a Fazenda Anoni. Todos os estados começaram a fazer ocupações.
No cenário político, em 1985 houve a eleição pelo parlamento do presidente da república, uma eleição indireta. Abria-se uma expectativa no quadro político de uma possibilidade da Reforma Agrária, pois não havia, naquela época, um partido político que fizesse seu programa de governo sem citar Reforma Agrária.
O país vivia um período de esperança com o primeiro presidente civil em 21 anos. O Plano Nacional da Reforma Agrária (PNRA) de 1985 previa dar aplicação rápida ao Estatuto da Terra e assentar 1,4 milhão de famílias. O plano, porém, fracassou.
Cedo, aprendemos que os interesses do latifúndio encontravam nos aparatos do Estado suas melhores ferramentas de repressão ou omissão. Foi assim, com o PNRA, no Governo Sarney, em que apenas 6% da meta de assentamentos foi cumprida – cerca de 90 mil famílias – ainda assim, graças à pressão das ocupações da terra.







