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Francisca Nawa ancestralizou. Coiab emite Nota de Pesar

Francisca Nawa ancestralizou. Coiab emite Nota de Pesar
 
Nós da Revista Xapuri nos somamos em pesar pela morte da anciã Francisca Nazaré da Costa Nawa, ancestralizada nesta quinta-feira, 27 de janeiro. Toda nossa solidariedade à família e comunidade de dona Chica, ao povo Nawa e a todos os povos indígenas da Amazônia  e do Brasil. 
 
NOTA DE PESAR DA COIAB
Francisca Nazaré da Costa Nawa – Povo Nawa
 
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) informa e lamenta com profunda tristeza a morte de Francisca Nazaré da Costa Nawa, mais conhecida como Chica do Celso, 88 anos, do povo Nawa. Chica do Celso faleceu ontem, 27, no Hospital do Juruá, em Cruzeiro do Sul/Acre.
 
A líder indígena, aos seus 64 anos, lutou pelo reconhecimento étnico frente a narrativa oficial de “extinção” do povo Nawa. Sempre esteve à frente das mobilizações do povo na luta pelo território, puxando com sabedoria a mobilização pela demarcação da Terra Indígena Nawa, no Parque Nacional da Serra do Divisor, em Mâncio Lima/AC.
 
A líder não viu a terra ser demarcada mas formou muitos guerreiros para a luta, quando aos 64 anos estampou vários jornais na região afirmando que Mariruni, sua avó, não era “a última sobrevivente Nawa”, mas sim a primeira, a partir da qual o povo passou pela transformação.
 
Chica do Celso, deixa uma floresta toda em pé! Germinando em cada um do povo Nawa a semente da resistência frente às violências que o povo sofreu em 175 anos de contato.
 
Neste momento de dor e sofrimento, nos solidarizamos com todos os seus familiares, amigos, todos do povo Nawa. Que os encantados a recebam em seus braços e que seu legado de luta permaneça vivo por gerações.
 
A líder indígena deixou 5 filhos, 37 netos, 25 bisnetos e 4 tataranetos.
 
Amazônia, Brasil, 28 de janeiro de 2022.
 
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
 
Imagem: Prefeitura de Mâncio Lima. Card da Coiab editado na capa por questão de espaço. 
Francisa Nawa Nota de Pesar
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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