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Hananeri virou pó de estrela

Hananeri adoeceu, subiu à sua aldeia e virou pó de estrela

Por José Meirelles

Descendente de uma nobre família Ashaninka, filho de Kitola, um dos primeiros a se mudar das cabeceiras do rio Juruá peruano para as cabeceiras do rio Envira, a pedido da antiga proprietária do Seringal Califórnia, Dona Neuza Prado. Este seringal era o último subindo o rio e além da seringa explorava manualmente mogno, ou aguano, como chamamos por lá.

Neste tempo havia uma turma de madeireiros no igarapé Riozinho, afluente da margem direita do Envira, que era sempre fustigado pelos índios isolados. Kitola veio com a embaixada de “dar um jeito” nos Amiuaka, como chamam genericamente os Ashaninka todos os povos isolados.

Diz a fofoca Ashaninka que o Hananeri era filho do Kitola com uma índia isolada que ele pegou numa correria. As características físicas do velho Hananeri pareciam denunciar a história. Os Ashaninka, na sua maioria, tem o nariz adunco, parecido com os índios da cordilheira. O do Hananeri era mais chato, denunciando a ascendência amazônica de algum Amiuaka.

Sua aldeia era a última rio acima, três horas de canoa, subindo o rio, até a base da Frente Envira onde eu morava. Éramos, pois segundo as distâncias amazônicas, vizinhos de biqueira. E pela igual idade avançada ficamos amigos. Ele sempre ia me visitar com sua família e passava dias em casa.

Tinha um senso de humor apurado, um riso fácil de escorrer lágrima do olho, além de grande feitor e cantor de ayuasca. E como todo velho um ótimo contador de histórias. Mas não era todo dia ou toda hora. Quando não estava com vontade de desfiar as histórias quilométricas de seu povo, quando perguntava qualquer coisa ele respondia:

-Assim mesmo! Se tivesse a fim de contar era uma maravilha.

Gostava da palavra qualquer.

-Cumpadre tem esse qualquer anzolito? Vai pegar esse qualquer couire (jitubarana) pra mim comê?

Quando eu chegava com um bocado de jitubarana ele dizia: -Papai de Envira bom né?

Gostava de colocar nomes Ashaninka nas pessoas. Meu neto Henrique era Tsirato (tucano), minha filha Maria da Liberdade era Maria Pongue. Eu, pela amizade era cumpadre Merela, o que muito me envaidecia.

Viajamos muito, pescamos muito e conversamos mais ainda.

Mas chegou o tempo da aposentadoria e meu amigo velho e sua esposa se aposentaram como soldados da borracha. Quatro salários por mês, Hananeri comprou batelão, motor, canoa pequena e motor de rabeta. E sempre tinha que ir a Feijó para receber sua aposentadoria. E bebia um bocado na cidade.

Numa noite, indo para seu batelão ancorado no porto de Feijó, foi atacado e recebeu várias pauladas na região peitoral. Dizem que foram outros índios que moram próximos à cidade de Feijó. Nunca se confirmou esta versão.

Desta surra adoeceu, subiu à sua aldeia e virou pó de estrela.

Que saudade grande de ti meu cumpadre!

ANOTE AÍ:

Meirelles 2 ac24horas

José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, sertanista brasileiro, nascido em Ribeirão Preto, 1948. Começou a trabalhar na FUNAI em 1970, depois de abandonar o curso de engenharia.   A partir de 1988, tornou-se um dos principais mentores da política de preservar o isolamento dos índios não interessados no contato com os “branco”.  Essa opção sucedeu às tradicionais posturas de antropólogos e governos, baseadas no contato para “proteger”, “aculturar” e “integrar” os indígenas. Meirelles integrou a Coordenadoria de índios isolados da FUNAI desde a sua criação, em 1987, por iniciativa do indigenista Sydney Possuelo  e coordenou a Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira (FPERE), no Acre,com sede da cidade de Feijó.  Na sua atividade passou por vários perigos: levou uma flechada no rosto em 2004 e, nos anos 1980, seu grupo foi atacado por índios isolados. Meirelles matou um deles para impedir que seu sogro fosse morto, o que considera um dos grandes traumas de sua vida. Fonte desta pequena biografia de Meirelles:

Wikepedia. Texto publicado em 6 de março de 2018 no Facebook de  Jose Meirelles 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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