Kambô
Sapo do Kambô
Sapo do Kambô

Kambô: A cura que vem do sapo

Kambô: A cura que vem do sapo – O foco deste texto será o controverso uso da chamada “vacina do sapo”, o kambô

Por Jairo Lima

Primeiramente, para quem não sabe, a popularmente chamada por estas bandas (e por outras também) de “vacina do sapo”, ou simplesmente de “kambô”, é mais uma das medicinas indígenas da Amazônia, muito comum no Acre e no Peru, que se utiliza da secreção de uma rã (Phyllomedusa bicolor) para afastar as “panemas” – que é o estado negativo de nosso espírito que atrai doenças, problemas e desarmonias na vida da gente -, harmonizando nosso yuxin com a natureza.

Vale explicar que yuxin é um dos nossos espíritos, pois, segundo a crença de muitos dos povos indígenas desta região, todos nós temos dois.

Essa medicina já foi alvo de briga internacional entre os indígenas do Acre e empresas internacionais que tiveram a ousadia de, além de piratear, também patentear os princípios ativos encontrados na secreção do anfíbio.

Meu primeiro contato com as propriedades purgatórias e espirituais de tão cobiçada jia foi em 2004, quando estive em atividade de pesquisa e assessoramento na Terra Indígena Campinas/Katukina, do povo Noke Koi. Caso queiram ler o relato de como foi este meu “encontro” clique aqui.

A ciência do kambô é algo sério e diretamente ligada a aspectos ritualísticos que, sem estes, perde-se o seu objetivo principal, que é a harmonização de nosso yuxin com as forças espirituais da natureza, como já descrevi acima. Não se trata só de fazer os “três pontinhos”, aplicar a secreção e ficar esperando o momento de retirá-la. A coisa vai muito além disso.

É uma medicina, um “remédio” que se toma quando se tem necessidade e, ao contrário do que muitos dizem, pode sim levar alguém à morte.

Nota-se o aumento de pessoas que se apresentam como aplicadores de kambô, que se dizem conhecedores da medicina. Principalmente junto as irmandades que comungam do chá sagrado. É preciso ter cuidado com estes charlatães. Já vi gente se passando por indígena, só para dar certa áurea mística aos seus serviços que geralmente custam muito caro. Temos visto ocorrer, em certo grau, o estabelecimento de um verdadeiro mercado negro ligado a esta prática.

Há de se refletir, se o aumento na procura da secreção desta rã pode ter algum impacto ambiental sobre as mesmas, uma vez que não são criadas em cativeiro, sendo sua obtenção através da captura na natureza.

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– Ué… quer dizer que se for índio que aplica está tudo bem?

Não, o pressuposto de ser indígena não garante que este saiba aplicar corretamente esta medicina. Seria a mesma coisa que achar que todo japonês sabe preparar um sushi de baiacu. Entretanto, os indígenas que utilizam esta medicina a conhecem desde criança e sabem muito sobre seus rituais, dietas e aplicações, mesmo sem ser, necessariamente, um pajé.

Kambô

No Acre, todos os povos indígenas são usuários desta medicina. Sendo que os Yawanawá, os Kaxinawá e os Katukina sempre foram considerados os principais expoentes deste conhecimento, principalmente por causa da luta destes pelo reconhecimento e proteção desse conhecimento como exclusivo dos povos indígenas.

Destaco nesta luta, a militância e clareza do posicionamento do líder Joaquim Tashka Yawanawá que sempre procurou alertar quanto a atuação de charlatães e demais aproveitadores (como os atravessadores). Vale conferir uma das entrevistas do mesmo sobre este assunto (clique aqui).

O governo federal deve retomar as pesquisas sobre esta medicina e definir os processo de uso da mesma, dentro de um contexto de homeopatia tradicional onde se reconheça, valorize e certifique as comunidades indígenas (ou extrativistas) para seu uso, com o estabelecimento de “casas de cura”, a exemplo da iniciativa realizada pelo governo chinês para com os tratamentos tradicionais deste país.

Até lá, creio que é preciso informar, esclarecer e, se necessário, reprimir a comercialização e o uso indiscriminado desta medicina. É preciso, principalmente, combater os charlatães e os atravessadores que são os que mais se beneficiam desta falta de regulamentação. Estes são, na minha opinião, biopiratas.

Também é preciso ter muita cautela ao se informar sobre esta medicina, não jogando no mesmo balaio o trabalho de curadores indígenas e extrativistas sérios com os de pseudo-xamãs espalhados em irmandades e demais centros esotéricos pelo país. Afinal, como dizem, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e, nesse caso específico, o lado mais fraco é do indígena. É isso.

Esse tema é muito complexo e mergulhar mais fundo no assunto demandaria várias postagens, o que não pretendo fazer. Sugiro, apenas, que, os que tiverem interesse no assunto que pesquisem, se informem e entrem em contato com quem possa orientar e esclarecer mais sobre o tema. Vale a pena. Existem muitos profissionais que estudam sobre esta medicina e muitas lideranças indígenas e pajés que detém muito conhecimento sobre isso.

Para os que querem experimentar as propriedades curativas desta medicina, o que aconselho é procurar saber mais sobre o porquê desta necessidade e, caso queira realmente experimentar, que busque aplicadores sérios, que tenham alguma referência.

É preciso entender que só quem está doente busca a cura. Assim como só quem está em desarmonia busca harmonizar-se. Afinal, água demais faz transbordar o pote, e o peso em demasia pode derrubá-lo e quebrá-lo.

Jairo Lima
Indigenista acreano, em Crônicas Indigenistas

 

Kambô, o sapo que cura

http://xapuri.info/kambo-sapo-cura/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora