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“Kiyawõtsi”: O Tempo das Águas…

“Kiyawõtsi”: O Tempo das Águas, segundo o Calendário Ashaninka

O desabrochar das flores do taxi e do ingá marcam a passagem da estação seca para a estação chuvosa. O pássaro katsinarite (espécie de uru, Odontophorus sp., família Phasianidae) se alegra com as primeiras chuvas e canta para avisar a todos quando o inverno chega…

Por Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Barbosa de Almeida 

Anunciando a nova estação, várias espécies de insetos, como formigas, grilos, gafanhotos, entre outros, que passaram por um longo período de silêncio, começam a cantar. o rato coró e algumas espécies de sapos também começam a manifestar-se da mesma maneira. Homo (um anfíbio, jia-do-baixo, Leptodactulus rhodomystx), que passou o verão inteiro calada, volta agora a cantar quase todas as noites; ao ouvi-la, os Ashaninka sabem que o inverno se aproxima e que as primeiras chuvas devem cair dentro de poucos dias.

Os primeiros sinais da chegada da estação chuvosa são as nuvens escuras, pouco vento e um calor muito intenso. Ventos e trovões acompanham as fortes pancadas de chuva do início da estação, que em geral são rápidas.

As águas dos rios e dos igarapés começam a modificar-se já com as primeiras chuvas, adquirindo um aspecto barrento, turvo. Ao perceberem os primeiros sinais da estação chuvosa, os Ashaninka que estavam acampados nas praias retornam às suas casas para cuidar de seus roçados, que já estão cheios de  mato, precisando de limpeza.

Os dias escuros de chuva continuam, obrigando as pessoas a se dedicarem à confecção de artefatos ou a atividades que podem ser realizadas dentro de casa, e são características da estação das águas.

As chuvas levam embora os peixes, que desaparecem nas águas barrentas do inverno; mas, por outro lado, trazem consigo coisas boas, como a abundância da caça, os bichos gordos e a fartura das frutas.

Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Barbosa de Almeida em “Enciclopédia da Floresta – Alto Juruá: Práticas e Conhecimentos das Populações. Editora Companhia das Letras, 2002.

Ashaninka Paolo R. del Aguila SajamiImagem: Paolo R. del Aguila Sajami


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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