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Luís Nassif: com choro e sem vela

Luis Nassif: com choro e sem vela

O respeitado Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira o classifica como “Compositor. Instrumentista. Bandolinista. Pesquisador de choro. Economista renomado…” e informa que ele é “frequentador do Bar do Alemão, um dos redutos do choro na cidade de São Paulo”. E a gente pode desde logo acrescentar que Luís Nassif é também um jornalista muito bem informado e crítico por vocação, defensor de suas ideias, agradem aos poderosos ou não.

Seu CD “Roda de Choro”, lançado em 1996, chamou atenção por trazer composições das nascentes desse gênero musical e demonstrar que a maior metrópole do país o cultiva com muito jeito, igual outras praças. Na ocasião, ele gravou autores até então quase nada conhecidos do grande público nacional. E foi acompanhado pelo grupo Nosso Choro, com violão, cavaquinho, clarinete, acordeom e pandeiro.

Os hábitos e maneiras de Nassif, hoje, são de paulistano, mas ele é mineiro de Poços de Caldas, onde nasceu em 1950. Há mais de duas décadas, por exemplo, as noites de segundas-feiras ele reserva às rodas de choro em um tradicional ambiente dos paulistas. É o Bar do Alemão citado pelo dicionário, nascido como confeitaria em 1902, na cidade de Itu, pelas mãos de uma família de imigrantes germânicos, que passou das tortas de maçã ao chope e steinhager e depois se firmou na capital.

Em verdade, Nassif foi pra São Paulo por causa dos estudos, aos 18 anos, passou no vestibular da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da USP, e por lá ficou. Depois de 46 anos na pauliceia, contudo, ele costuma usar a frase de Fernando Sabino (“Sou mineiro daqui mesmo.”) pra dizer que mantém vivas as lembranças de Minas Gerais.

Aliás, sua infância e primeiros estudos ele relembra com carinho e humor no livro “Menino de São Benedito”, finalista do Prêmio Jabuti de 2003. “São crônicas mostrando como um moleque de Poços de Caldas, morador do Largo de São Benedito, que convivia com turistas e com os congos locais, via o Brasil”, explica ele.

As iniciações, tanto na música quanto no jornalismo, foram lá mesmo. Os primeiros acordes, ainda meio desajeitados, surgiram já aos cinco anos de idade, na escola de piano. Aos 10, passou a tocar cavaquinho com afinação de bandolim e depois se fixou no violão. Quando já morava em São Paulo, porém, virou bandolinista de vez.

Na escrita, os primeiros passos foram em uma publicação de uma associação de jovens e como estagiário no jornal Diário de Poços. Mas a inspiração mesmo vinha do berço. Seu pai era farmacêutico, um dos fundadores do Conselho Federal de Farmácia. Mas, além do dia a dia no comércio, ele escrevia uma coluna no jornal Gazeta de Farmácia, em que contava causos de colegas de profissão pelos sertões brasileiros. E os artigos viravam um assunto da casa, claro, influenciando o filho e suas quatro irmãs mais novas.

Ainda estudante universitário, Nassif passou rapidamente de estagiário a repórter de Economia da revista Veja, iniciando ali uma carreira que influenciou uma geração e irritou outra. Segundo o portal Uol, da Folha de S.Paulo, foi ele o introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país.

Em 1979, ele deixou a revista e se integrou ao grupo que implantou o Jornal da Tarde, vespertino inovador do grupo Estado de São Paulo. Implantou ali a seção “Seu Dinheiro” e o caderno “Jornal do Carro”, que introduziram o viés da economia pessoal na imprensa brasileira. Em seguida, foi contratado pela Folha de S.Paulo, onde criou a seção “Dinheiro Vivo”, marco na imprensa econômica nacional, e integrou a equipe que criou o Datafolha, um gigantesco banco de dados.

Vale lembrar que o “Dinheiro Vivo” virou também programa na TV Gazeta, como produção independente. E dali surgiu a Agência Dinheiro Vivo, que ainda hoje frequenta a telas de computadores de empresas, sindicatos, organismos internacionais e os lares dos brasileiros.

Mas, de igual modo, Nassif ganhou destaque como membro do Conselho Editorial da própria Folha, onde assinou coluna econômica por 15 anos, e do Conselho de Estudos Avançados da USP. Ainda na década de 1980, promoveu amplo debate com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), considerado o início do movimento de defesa do consumidor no país. E são incontáveis os prêmios que já recebeu.

Há coisa de uma década, ele adotou uma postura de severo crítico da imprensa tupiniquim. Publicou o livro “O Jornalismo dos Anos 90”, sobre as mudanças na postura da mídia naquele período, e iniciou uma série de reportagens sobre como é produzida e editada (e a quem serve) a revista Veja. Ele afirma que essa mídia “perdeu as noções básicas de jornalismo e está em processo de degradação”.

Seus julgamentos certeiros, afiados e de valor literário, provocam a ira de atingidos. Por isso, ele responde atualmente a nove processos judiciais. Seis são de outros jornalistas, dois do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, e um do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Foto: Olímpio Cruz

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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