MODÉSTIA: A PALAVRA CERTA PARA DEFINIR JAIME SAUTCHUK

Modéstia: a palavra certa para definir Jaime Sautchuk 

Nenhuma palavra resume o caráter de uma pessoa. Mas é possível escolher aquela que mais simboliza sua maneira de ser e agir no mundo. Para Jaime Sautchuk esta palavra é modéstia. A capacidade de fazer sem precisar aparecer como autor.

Por Cristovam Buarque

Ele tinha a simplicidade que lhe permitia lutar e desempenhar papéis decisivos, sem precisar mostrar que estava na trincheira.

Com esta maneira discreta, conseguiu ser um jornalista competente e respeitado, um militante ativo e um pioneiro na consolidação da ideia e na realização do movimento pelo desenvolvimento sustentável, além de exercer na prática a atividade de ecologista.

Em sua geração, Jaime esteve adiante da maioria no respeito à natureza e na crítica à civilização industrial. Para ele, a barbárie estava na exploração do homem pelo homem, mas também na depredação da natureza pelo conjunto dos seres humanos.

Nesta concepção e luta ele fez amigos e aliados aos quais cabe agora a responsabilidade de carregar a bandeira que ele portou por quarenta anos.  Com toda sua modéstia, Jaime vive em nós e naqueles que vierem depois.

Rênio Quintas: UM SER HUMANO APAIXONADO 

Jaime Sautchuk era um ser humano apaixonado, um homem de convicções! Amava a humanidade, o humanismo, a natureza e o Cerrado. Reverenciava nossos irmãos indígenas, acreditava nas pessoas!

Construiu uma história de vida de integridade e coerência política! Leal com amigos, era grande e permanente parceiro. Tive o privilégio de assinar algumas trilhas de vídeos idealizados por ele. Jaime fará muita falta nesse momento de homens áridos, rasos e, em última análise, vazios!

Segue em paz, querido amigo, em sua nova jornada cósmica, navegando nas estrelas que você adorava olhar nas noites suas do seu Brasil profundo!

Thâmar de Castro Dias: LÁ SE VAI UM GIGANTE

Lá se vai um gigante. Um grande jornalista nacional e internacional, compromissado com a verdade dos fatos. Defensor intransigente do meio ambiente.

Lutador da causa da liberdade, da Democracia, da soberania dos povos e da igualdade das pessoas. Numa hora de obscurantismo e ameaça autoritária, sofremos uma perda significativa nas hostes progressistas e democráticas.

Eu perco um grande e carinhoso amigo. Presente na minha vida há 40 anos. Sempre muito presente. Vai ser difícil conviver com mais essa ausência.

Foto: Claudinha 

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Jaime Sautchuk : Feliz com as coisas que faz e com o amor que tem

Homenagem ao Jaime Sautchuk 

Por Cláudia Costa Saenger

Cláudia – O que te constrange?

Jaime – O que mais me constrange é pensar que estou fazendo mal a alguém. Fico doidinho querendo reparar.

Cláudia – Qual o pior sentimento humano?

Jaime – Acho que inveja, que é o contrário da solidariedade.

Cláudia – O que te excita?

Jaime – Bom, uma boa ideia me excita. Mas a carne é fraca, de modo que um ato sexual também é bom demais…

CláuDia – Como foi o seu primeiro beijo?

Jaime – Nem lembro direito… Mas, beijo mesmo, foi lá pelos 16 anos, em Curitiba, com uma namorada que achava que ia casar comigo… ksks

Cláudia – Você se arrepia com música?

Jaime – Claro!

Cláudia – Qual música te faz arrepiar?

Jaime – Um blues de Lidbeli, um canto do Gil, uma rima do Chico, um acorde de Chopin, um rasqueado do Tião Carreiro, uma batida de festa do Divino… Ou seja, música é arte, e arte me encanta… até um gol no futebol, que é arte tbém…

Cláudia – Pior porrada na vida?

Jaime – Acho que foi o nascer do meu 1º filho, quando eu tinha 22 anos (a Vera tinha 26). Sim, pior no sentido de mais forte, não de negativo.

Cláudia – Pior traquinagem?

Jaime – Traquinagem não tem pior… é sempre boa. Tem muitas, desde menino. Mas meu jeito de furtar discos em lojas de Curitiba era 10.

Cláudia – Do que se arrepende?

Jaime – De nada. Afora pequenas coisas que podem ter prejudicado pessoas, mas que foram sem querer. Mas, nas grandes coisas, nada.

Cláudia – Do que se lembra com ternura.

Jaime – Eu poderia ser um cara rico, se tivesse sido a favor da ditadura, por exemplo… mas disso sinto orgulho.  [E de] um padre marista, chamado Irmão Ventura Ferreira, meu professor de história, de francês e de sociologia…

Cláudia – Palavra que te descreve?

Jaime – Amor

Cláudia – Nome do primeiro amor?

Jaime – Ana

Cláudia – Como terminou, se é que terminou?

Jaime – Era minha mãe. E morreu…

Cláudia – Pior terminar ou terminarem?

Jaime – Não vejo essa dicotomia… as coisas acontecem meio que por acaso…

Cláudia – Complete a frase: Sou um homem que…

Jaime – … é feliz com as coisas que faz e com o amor que tem.

(…)

Cláudia – Desse jeito, vai ter que me recolher com um pano de chão (eu me dizia manteiga derretida, chorona).

Jaime – Com um canudinho.

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Cláudia Costa Saenger – Companheira de Jaime – Diálogo via skype no ano de 2014. Jaime virou pó de estrela em 14/07/2021. Claudinha não aguentou de saudade, foi ao encontro de Jaime em julho do ano seguinte. 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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