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Munduruku: “O garimpo continuando…

Munduruku: “O garimpo continuando, de aqui a uns anos, não vai prestar mais, não”, denuncia liderança indígena

Um dos grandes vilões na Amazônia é a mineração, que invade gradualmente todo o território, incluindo terras indígenas, o que é proibido pela Constituição Federal, um documento que nos últimos tempos tornou-se papel molhado.

A reportagem é de Luis Miguel Modino/ihu.unisinos.br

A região do Alto Tapajós é habitada milenarmente pelo Povo Munduruku. Na atualidade, lá vivem cerca de 14.000 pessoas em 130 aldeias, veem como o garimpo invadiu sua terra, que está causando grande preocupação entre líderes indígenas. Em 2019, com a chegada ao poder do novo governo, que ignora os direitos indígenas e promove atividades econômicas de qualquer tipo, mesmo que coloque em risco a vida das pessoas e do meio ambiente, o aumento dessas atividades é, de acordo com as lideranças munduruku, evidente.

Esta situação leva os próprios indígenas a se perguntarem “como vamos viver depois?”. Uma liderança responde, “eu sei que isso aí não vai trazer coisa boa, vai criar só doença, com o mercúrio. Isso está me deixando mais triste, porque a gente que é responsável, a gente fica muito preocupado. Não é por causa da gente, por causa de nossos netos que estão lá”.

Os próprios líderes indígenas reconhecem que, pouco a pouco, a lei deixou de ser cumprida em referência aos povos indígenas no Brasil. Por isso, afirmam que “tem que respeitar a lei, não pode invasor dentro da área indígena. O garimpo continuando, de aqui a uns anos, não vai prestar mais, não”. Dentro da Terra Indígena Munduruku têm contado 137 retroescavadeiras, que segundo os indígenas “suja muito a água, cria muita doença e não vai trazer resultado bom para nós. Então nós vamos sofrer, o rio já está morto por causa de garimpo e de barragem. Isso aí que está fazendo muito problema sério para nós”.

O garimpo está chegando cada vez mais perto das aldeias, algo que foi denunciado ao Ministério Público em Santarém, que até agora não respondeu. “Cada dia estão entrando mais ainda na nossa área. A gente tem que ficar até com medo, pode acontecer coisa feia lá, e a gente não quer ver isso, a gente quer o bem para o povo, o povo não quer sofrer, o povo quer trabalhar todo mundo animado, não adianta ficar chorando, sofrendo”, denunciam os munduruku.

Nesta luta contra o garimpo, o Povo Munduruku tem o apoio do Conselho Indigenista Missionário – CIMI. Seus agentes reconhecem que esta é uma história que está presente na região desde o início dos anos setenta, quando o líder indígena da época avisou o seu povo sobre os males que poderiam trazer este tipo de atividade, algo que hoje é visto como uma espécie de profecia e denúncia. Ele advertiu que “ia destruir a terra, ia trazer doença e dividir o Povo Munduruku”, o que hoje é uma realidade palpável.

Os garimpeiros foram comprando os indígenas, algo que aconteceu, por exemplo, em uma aldeia chamada Posto de Vigilância, onde anos atrás “uma família foi para lá com a finalidade de fazer a fronteira e bloquear, parar a entrada de garimpeiros, a extração de madeira e outras coisas mais”, como relatado pelos agentes do CIMI. Com o passar do tempo “essa família se tornaram donos de garimpo, se associou com o branco e começou uma entrada de garimpo, uma destruição, a ponto de ter corruptela. Hoje já soma mais de oito quilômetros de extensão e a aldeia ficou meio, com destruição de um lado e de outro, uma aldeia muito pequena dentro de uma área de destruição”, segundo os agentes.

Os meses de dezembro a fevereiro são os mais perigosos, já que o aumento do nível de água provoca a entrada de balsas de pequeno porte. A coisa mais séria, como reconhece o próprio CIMI, “é que os garimpeiros munduruku estão fazendo alianças com os brancos. Agora aconteceu recente numa aldeia que o capitão fez uma aliança com o dono de dragas, cobrou 3000 reais e entraram 30 dragas dentro dessa área. A devastação está muito grande, a febre do ouro e do ter, traz uma destruição para o Povo Munduruku, que traz um novo modelo para os jovens”.

Isto tem causado uma mudança de mentalidade entre os indígenas, porque, segundo os agentes do Conselho Indigenista Missionário, “começa a se construir que o homem bom para os munduruku é o garimpeiro, que tem dinheiro para beber, que sai. Em cada garimpo dentro da terra munduruku já se tem cabarés e as mulheres vão lá fazer programa”.

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Por outro lado, há muitos que entre os munduruku querem que sejam implementadas as Políticas Públicas garantidas na Constituição Federal, como é a Educação Indígena Diferenciada, conforme definido na última assembleia do Povo Munduruku, “queremos que as nossas crianças aprendam a nossa língua para, através dela, conhecerem e valorizarem os nossos antepassados, as nossas formas de caçar, pescar e de preparar nossas comidas, as nossas crenças, nossas pinturas, as nossas danças, os nossos cantos e todas as nossas diferentes formas de arte”, pois isso, “não é privilégio, mas um direito originário reconhecido na Carta Magna”.

Educação não é o único ponto de queixa dos Munduruku, porque em diferentes assembleias, com a presença de representantes do governo, têm sido abordadas questões referentes à saúde e à defesa do território, especialmente os problemas decorrentes da atividade de garimpo, que são prejudiciais à saúde e ameaçam o território “que é o que sustenta nossas vidas”, porque, como os próprios indígenas dizem, “sabemos que temos o direito a uma saúde e uma educação diferenciada que garanta nossa existência e nos conceda autonomia e autodeterminação”, sublinhando que “não podemos aceitar omissão ou inércia ao se tratar de direitos indígenas, e mais importante que isso, não podemos aceitar que nossos direitos sejam feridos ou que seja fragilizada a sua plena garantia”.

O Povo Munduruku, que, segundo eles, “sempre teve uma relação com a natureza e animais de forma harmônica e de respeito, pois todos os nossos animais e plantas são considerados como ancestrais”, vive hoje em meio a “conjunturas políticas que têm ameaçado toda nossa história, cultura e o direito à posse da terra”. Por isso, os munduruku exigem do governo brasileiro “que assegure e cumpra todos os nossos direitos conquistados durante todos esses anos de luta”.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos / A foto interna acompanha a matéria.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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