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O Buriti – Mâncio Lima, Acre

O Buriti – Mâncio Lima, Acre
Entrou na moda dizer que a bioeconomia vai salvar a Amazônia, preservando a floresta e movendo a economia, apontando para um futuro a ser conquistado. O caminho é esse mesmo, mas precisa lembrar que essa tal bioeconomia da floresta já existe e ha muito tempo! São pequenos, mas muitos negócios e empregos que já existem e que fazem a base desse “futuro” que precisa ser hoje.
 
Já vimos à beça sobre borracha e seringa. Agora vamos de buriti! Guimarães Rosa deve ter dado o posto mais nobre dos buritizais do Cerrado, típico das áreas alagadas. Tem muito na Amazônia também!
 
Em Belém, conhecida matéria-prima dos brinquedos de miriti da época do Círio de Nazaré. Dela faz-se também o óleo do buriti, que a indústria cosmética usa em protetor solar e loção pós-sol (anti-irritante e recuperador celular), shampoo (recupera e hidrata os fios) e sabonetes.
 
Em Mâncio Lima, a Elines toca uma cooperativa de 95 produtores, que colhem o fruto e transformam em óleo na cooperativa, que por sua vez comercializa para Belém e Sao Paulo.
Elizangela está fazendo mestrado sobre o tema e é uma espécie de conselheira da Presidenta, sua amiga. Não me perdoo por nao ter uma foto dela!
Ana Cristina Mancio Lima Buriti no latão
 
Colher o buriti significa escalar uma palmeira grossa de uns 5 m de altura – ou mais! O kit da cooperativa inclui umas garras e amarras tipo rapel. Elizangela reclama que essas garras podem vir a matar a árvore, precisa de outra técnica…  Subiu, derruba os cachos e a familia toda pode trabalhar em debulhar os frutos. A cooperativa fornece uma lona plástica pra ajudar a manter os frutos limpos nessa hora.
 
Tem gente que tem buritizal próprio, outros tiram da Unidade de Conservação que tem perto da cidade, outros ainda colhem nas fazendas privadas. Proprietário criou olho grande e, se antes deixava os extrativistas entrarem pra colher o que nao usava, agora quer cobrar. Dez reais. Elizangela já fez um projeto de Lei do Buriti Livre, tal qual o babaçu, que é de todos, não interessa na terra de quem esteja.
 
Na cooperativa, Elines trabalha pra conseguir recursos para aprimorar o maquinário e a infraestrutura de processamento. Na área de lavagem, o projeto foi mal dimensionado e não deu pra terminar a obra que abrigara a bitela que recém comprou. As fotos vão na sequência. Dois dias se secagem na estufa ao sol, os frutos vão para o secador elétrico.
Ana Cristina Mancio Lima Sindicato mulher com mangueira 1
 
Equipamento especializado é difícil, usam um adaptado da secagem de café (a grande roda atrás do forno, na foto). Fruto seco, hora de quebrar para separar a casca da polpa. Esse processo é manual. Depois, a prensa, que esse ano deu problema no eixo. Novo, so em Sao Paulo. Estão recauchutando pela 2a vez o eixo do motor. Da prensa dai o óleo que descansa no tonel de alumínio e passa por duas filtragens.
 
Essa trabalheira garante um melhor preço pago por saca de buriti-fruto! A cooperativa vende uns 150 mil reais de oleo. Se tivesse máquina para destilar, teria retorno muito maior! A presidenta e sua amiga acadêmica estão na luta. E estão conseguindo, ainda que o marido da Elines reclame que ela não esta em casa quando os filhos choram. Ela esta tocando seu negócio!
 
Ana Cristina Barros – Pesquisadora. Escritora. Anja da Amazônia. As fotos são todas de Ana Cristina Barros. 
 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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