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O Herói de Itabuna

O Herói de Itabuna

Por Zezé Weiss

Enquanto a Bahia se acabava em enchentes e o chefe da Nação ostentava sandices no oceano de Santa Catarina, ao ponto de obstruir o próprio intestino com a ingestão de um camarão inteiro, um humilde pescador de Itabuna enfiou a jangada na correnteza para salvar vidas.

Ao tempo em que o presidente ignorava, solenemente, a dor do povo baiano, incansável, Jean de Oliveira mudou o rumo de sua humilde vida para resgatar famílias ilhadas pelos temporais que dizimaram o sul da Bahia.  Jean diz que perdeu a conta de quantas viagens fez pelos alagados de Itabuna para, ao final, salvar 121 famílias, segundo sua própria estimativa.

Ao tempo em que salvava vidas alheias, Jean perdeu a própria casa para as chuvas. Só soube um dia depois, quando pôde, enfim, cuidar dele mesmo. Perguntado como se sentia ao saber de sua perda, Jean disse incisivo: “é pequenininha”, comparada com a dor coletiva do povo baiano. Um herói de verdade, segundo uma moradora de Itabuna.

O herói da Bahia – e do povo brasileiro – foi descoberto pelo fotógrafo Guthierry Andrade, durante cobertura que ele fazia da tragédia das enchentes para o site “Só Notícia Boa”.

Zezé Weiss – Jornalista Socioambiental.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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