O QUE É O MARCO TEMPORAL

O QUE É O MARCO TEMPORAL

O que é o Marco Temporal

Você sabe o que é marco temporal? Esse é um dos maiores problemas jurídicos que as terras indígenas sofrem atualmente. O recurso jurídico promovido pelo governo do ex-presidente Michel Temer pode reduzir consideravelmente o direito dos povos nativos e é criticado pelos povos indígenas e ativistas pelo meio-ambiente. Mas no que consiste o marco temporal?

Por Yuri Ferreira

Uma decisão do Supremo Tribunal Federal em favor da criação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, afirmou que a criação da reserva era legítima pois os povos indígenas eram ali residentes à época da Constituição de 1988, que garantiu a criação das reservas.

Em 2017, a Advocacia Geral da União afirmou que a abertura da jurisprudência da decisão deveria valer para todas as reservas indígenas. Assim, os povos que não residiam nas terras indígenas (TIs) durante a CF de 1988 ou não tem como comprovar a residência nesse momento, deveriam perder suas reservas para grileiros e garimpeiros.
“Não há uma marca temporal particular para qual suas terras devem ser reconhecidas, já que o tempo é imaterial. Os indígenas viveram em seus territórios desde sempre, de seus ancestrais até o presente. Colocar uma linha do tempo em cima disso para demarcar as terras é violar o décimo artigo da Declaração, em particular, que diz respeito ao direito às suas terras e territórios”, afirmou  Victoria Tauli-Corpuz, da Organização das Nações Unidas (ONU), ao Brasil de Fato.
 
A criação de terras indígenas é um processo complexo. Mas quem comanda a instauração das TIs é a Funai. Os profissionais da fundação fazem um estudo e propõem a delimitação do território. Assim, enviam um ofício ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, que repassa o projeto para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que pode reassentar não-indígenas que estavam no local. Depois de finalizada a trama burocrática, o presidente da República pode sancionar ou não a criação.
 
Entretanto, a Bancada do Boi, que representa os interesses dos agropecuários no Congresso, acredita que deve existir uma limitação legal para a criação dessas terras. Segundo os deputados e senadores, seria preciso criar algum tipo de dispositivo para barrar a expansão das TIs, pois senão “até a Praia de Copacabana eles podem reivindicar.”
Aparentemente, a banca de parlamentares pró-ruralistas esqueceu que na verdade, toda a terra do Brasil é, indígena.
 
“Os índios reivindicam áreas que ainda têm significado para essa organização social específica. As demandas de marcação são concretas, específicas, delimitadas e bem localizadas. Ninguém está reivindicando a praia de Copabacana”, explica Juliana de Paula Batista, advogada do Instituto Socioambiental (Isa) ao ECOA.
 
Hoje, o julgamento de uma ação percorre o Supremo Tribunal Federal. Trata-se de um conflito de TIs em Santa Catarina. Uma ação do TRF-4 (de Curitiba) encerra a demarcação da reserva indígena feita pela Funai para o povo Xokleng. A área não era ocupada durante a CF de 1988 pelos indígenas, que foram expulsos da região em 1914 e realocados em outra localidade.
 
A Funai resolveu criar a reserva para tentar defender os povos indígenas da região Sul do país. Desde 2003, ações impedem que a TI seja criada. Os ruralistas pressionam o STF para barrar a ação com a tese do Marco Temporal. Os povos indígenas se preocupam com as consequências de uma decisão desfavorável aos Xokleng, que pode afetar outras demarcações ao redor do país.
Vale lembrar que a própria jurisdição do STF reitera que o Marco Temporal foi somente usado para o caso da Raposa Serra do Sol. No ano de 2013, a corte suprema de juízes reiterou que a decisão não valeria para outras terras indígenas.
 
“Se os ministros forem seduzidos pela armadilha ruralista e implementarem sobre nós o marco da morte (marco temporal), precisamos alertar os mesmos que estarão assinando um tratado de guerra e de extermínio contra os povos indígenas brasileiros. Mesmo que a caneta determine, não poderemos simplesmente sair de nossos territórios”, afirma um documento assinado por lideranças dos povos Terena, Kinikinau, Kadiweu, Guarani Nhandeva e Guarani e Kaiowá após o Encontro dos Povos Indígenas do Mato Grosso do Sul em fevereiro desse ano.
 
Fonte: Hypenness

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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