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Política na fila do supermercado

Política na fila do supermercado

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Um homem com um kilo de feijão preto, uma bandeja com uma linguiça e um toucinho, dois kg de arroz e duas latinhas de cerveja. Ele começa a ficar angustiado. Para calcular o valor da compra. Mais: reclama que o salário estava ficando todo no supermercado…

Por Cristiane Lemos / Renato Dias 

Um homem com um kilo de feijão preto, uma bandeja com uma linguiça e um toucinho, dois kg de arroz e duas latinhas de cerveja. Ele começa a ficar angustiado. Para calcular o valor da compra. Mais: reclama que o salário estava ficando todo no supermercado.

Cálculos, caras e bocas. Será que vai dar mais que R$ 40 ? R$ 35? Neste momento a funcionária do caixa era a sua grande inimiga. Eu entrei no clima da tensão tentando adivinhar o valor final da compra. Mas terminando de ensacar as minhas, tive que sair sem saber o veredicto final.

Resumo da ópera! Conviver com inflação e crise econômica tinha sido esquecido por muitos. Andar de carro virou luxo. Comprar gás, remédios, pagar contas básicas de energia e água, um verdadeiro desafio. Fico triste de ver gente humilde ainda apoiando o governo federal.

Pelo menos não  tem corrupção, dizem!  Ignoram as rachadinhas, a compra do Centrão para frear o impeachment! Ignoram a incompetência plena de gerir a pandemia! Ignoram as mais de 480 mil mortes evitáveis.  Ignoram o ataque à Amazônia.  Ignoram que vão morrer sem chance de se aposentar. Ignoram os ataques às universidades . Ignoram o ataque ao SUS e às escolas públicas.  Ignoram o ataque à ciência e a arte.

Assim vamos caminhando. Com a pressão  que se ilustra  nesta cena cotidiana. Uma opressão que nos meus 47 anos de vida nunca tinha visto. Mais triste ainda: a opressão é  regada e cultivada por religiosos que falsamente usam o nome de Jesus para fazer exatamente o contrário que este grande homem fazia!

O homem  da fila do supermercado somos todos nós trabalhadores neste governo federal. As duas cervejinhas não eram um luxo. Uma necessidade existencial para suportar um dos piores momentos históricos do Brasil republicano.

Jair Bolsonaro Sinpro
 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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