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Pseudônimo: Luz Del Fuego; nome: Dora; sobrenome: Liberdade!

Pseudônimo: Luz Del Fuego; nome: Dora; sobrenome: Liberdade!

“Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder”.

Por Iêda Vilas-Bôas 

Luz del Fuego era o nome artístico de Dora Vivacqua, dançarina, naturista, atriz, escritora e feminista brasileira, moça de gênio rebelde, que se recusava a seguir os padrões estabelecidos.
Em Minas, onde morou durante a infância e a adolescência, Dora descobriu o serpentário da Fundação Ezequiel Dias, que logo se tornou o seu lugar preferido e as serpentes tornaram-se criaturas íntimas de Dora. Entendia-se bem com elas.

Dora concluiu o ensino superior e bacharelou-se em Ciências e Letras, mas desde muito jovem tinha verdadeira aversão às convenções sociais e às ideologias conservadoras que lhe eram impostas pela sociedade. Por conta de seu jeito e temperamento, foi internada duas vezes em clínica psiquiátrica como esquizofrênica.

Assim, aos vinte anos, fugiu para o Rio de Janeiro, foi encontrada pela família e enviada ao Colégio da Imaculada Conceição, em Botafogo, Ao atingir a maioridade, à época 21 anos, saiu dali e seguiu sua vida adotando por lema a liberdade. Dora praticava e foi pioneira do naturismo no Brasil.

O naturismo é um conjunto de princípios éticos e comportamentais que preconizam um modo de vida baseado no retorno à natureza como a melhor maneira de viver, defendendo a vida ao ar livre, o consumo de alimentos naturais e a prática do nudismo. Dora passou a adotar este estilo de vida entre os anos de 1940/50, fundando o primeiro reduto naturista da América Latina, e foi considerada a primeira nudista brasileira.

A Ilha do Sol foi o primeiro espaço destinado aos naturalistas da América Latina e sobre o qual ela mantinha rígido controle, não permitindo a entrada de bebidas alcoólicas, o uso de palavras de baixo calão, nem a prática de relações sexuais na colônia, distinguindo nitidamente naturalismo de libertinagem. Ela é reconhecida, sobretudo, por sua contribuição na luta pela emancipação das mulheres.

Nasceu em 1917 num festivo dia 21, do mês do Carnaval, em Cachoeiro de Itapemirim-ES, e faleceu, tragicamente, no Rio de Janeiro, no dia 19 de julho de 1967. Luz Del Fuego foi assassinada, juntamente com o seu caseiro, por dois pescadores na Ilha do Sol.

Seus corpos foram lançados ao mar, mas recuperados dias depois, em 02 de agosto. Viveu pouco, mas intensamente. E se não lhe houvessem ceifado a vida, através de um assassinato, teria morrido de maneira natural como uma anciã antenada, moderna e feliz.

Dora descendia de uma família de intelectuais e políticos, sua casa era palco de reuniões literárias que contavam sempre com a presença de relevantes personalidades do modernismo brasileiro. Em 1942, optou por seguir a carreira artística.

Nesse período passou a amestrar serpentes e, dois anos mais tarde, estreou nos teatros de revista do Rio de Janeiro sob o pseudônimo de Luz Del Fuego. A artista aparecia em seus espetáculos de dança com um casal de serpentes, duas jiboias chamadas de Cornélio e Castorina, enroladas em seu corpo, quase sempre nu ou seminu.

De imediato, essas apresentações provocaram furor por todo o país e transformaram-na em uma das principais atrações do teatro nacional. Os mais conservadores a condenavam e a repudiavam considerando-a uma ameaça à moral e aos bons costumes. Em algumas cidades foi impedida de entrar e de se apresentar. Entretanto, o público de Luz Del Fuego cada vez mais aumentava.

Suas exibições atraíam uma plateia enorme e, assim, ela tornou-se uma das vedetes mais conhecidas dos anos 1950 no Brasil.

Navegando nessa onda de sucesso, Luz Del Fuego apresentou-se, inclusive, no exterior. No início dos anos 1940, começou a expor os seus ideais. A sua linguagem falava de causas existencialistas, naturistas, da defesa dos direitos da mulher, da liberdade de expressão e do combate aos preconceitos sociais.

Nossa Luz, intelectual que era, escreveu e publicou dois livros, em um deles, A Verdade Nua, que passou a amestrar serpentes e, dois anos mais tarde, estrou nos teatros vendeu mais de mil volumes em apenas quatro dias, lançava a teorização do movimento naturista brasileiro, porém este livro sumiu, foi banido das livrarias. No outro, publicado em 1942, Trágico Blackout, escreveu um romance autobiográfico que trazia em seu bojo relatos do abuso que sofrera de seu cunhado, reflexões sobre a vida das prostitutas e da prostituição, em si e críticas à sociedade conservadora.

Era muita modernidade para a época, e talvez ainda seja nestes tempos de hoje. Fundou um partido político e tentou candidatar-se a deputada federal pelo PNB – Partido Naturista Brasileiro, que tinha por bandeira: “mais pão, menos roupa”; mas foi impedida de registrar sua candidatura. Seu irmão, Attilio Vivacqua, na época Senador da República, ajudou a impedir o registro do partido e de sua candidatura.

Durante os anos 1950 aventurou-se em produções cinematográficas que não obtiveram tanto êxito. Autorizada pela Marinha do Brasil, foi viver em uma ilha que rebatizou com o nome de Ilha do Sol, ali fundou o Clube Naturalista Brasileiro.

Sua história serviu de inspiração para um documentário: A Nativa Solitária, em 1954. Em 1982 foi lançado um filme com seu nome. Em 2010, Luz Del Fuego foi incluída na lista “Musas que fizeram a história do Rio”, elaborada pelo portal G1. Em 1975, a cantora Rita Lee dedicou-lhe uma canção em que a intitulou: “uma mulher sem medo”.

Em 2011, fez parte da exposição “Brasil Feminino”; cuja temática focava na trajetória social da mulher brasileira desde o período colonial. Neste mesmo ano, foi nomeada uma das “heroínas do século XX”. Em 2012, um repórter da Folha de São Paulo elencou-a como uma das mulheres históricas do Brasil por “erguer a bandeira do naturismo e zelar pela causa feminina até a morte”.

Em 2013, uma colunista do Correio Braziliense escreveu que Luz Del Fuego, assim como a francesa Simone de Beauvoir, foi uma das mulheres que empoderaram outras mulheres, mostrando que as diferenças entre os gêneros são mais sociais que biológicas. Em 2015, a pintora pernambucana Nathália Queiroz dedicou-lhe uma exposição. Em 2016, o site BuzzFeed, na versão brasileira, colocou-a em oitavo lugar no catálogo “14 mulheres brasileiras que fizeram história”.

Por ter sido uma mulher vanguardista, despida de preconceitos sociais e muito à frente de seu tempo: Salve!

Iêda Vilas-Boas
Escritora

NOTA DA REDAÇÃO: Este texto, da escritora Iêda Vilas-Bôas, foi publicado originalmente em 18 de maio de 2018. Iêda partiu para o mundo dos encantados em 8 de abril de 2022. Para honrar sua memória, no primeiro aniversário de seu encantamento, republicamos parte dos textos memoráveis que Iêda Vilas-Bôas publicou na nossa Revista Xapuri. Este é um deles. Paz e Bem. 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!


 

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