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Waka Maikiria

Waka Maikiria

Por: Jairo Lima
Findou o carnaval, pelo menos é o que parece já que hoje em dia não se sabe ao certo quando ele começa e quando termina.

Sento para escrever minha crônica do mês. Fico matutando se ainda tenho algum assunto para compartilhar com meus poucos leitores. Decido ir ouvir música indígena enquanto navego pelas mídias para me alienar e me informar e, nesse processo alienante vejo no ‘feicebuqui' que o ator Fábio Assunção esteve por estas bandas, aqui no Acre Indígena, mais precisamente na aldeia Morada Nova, povo Shanenawa, município de Feijó. Ele veio em busca de cura para suas mazelas materiais e espirituais através da força das medicinas indígenas, capitaneadas, claro, pelo ‘Uni' ().

Vi as várias postagens sobre essa visita, já que estive ‘fora do ar' durante todo o piseiro carnavalesco e, nas redes sociais em comum com os parentes Shanenawa vi o sujeito ‘antes' e ‘depois' da visita, nas diversas fotos compartilhadas. Bem, a meu ver, excetuando-se a cara de quem não dormiu nada (e isso deve ser comum para ele) o figura parecia bem, até se comprometeu a voltar em setembro.

Lembrei que eu e Cris também temos que voltar para continuidade ao nosso ‘tratamento' junto a este povo, coisa que Mukani sempre cuida de me lembrar quando mantemos contato. Certamente que nossa situação nem de longe se compara a do famoso figura citado acima, pelo contrário, trata-se de uma energização completa, sob os cuidados do mestre Shoaynê, o querido ‘Pai Amaral', patriarca da aldeia Shane Kaya.

Ainda ‘navegando' no ‘feice' vejo os excelentes vídeos do Isku Kua Yawanawá, que recentemente criou um canal no YouTube para apresentar ao mundo, além de sua música, suas percepções e reflexões sobre vários temas. Continuando vejo uma dezena de postagens oferecendo sob encomenda (povo doido esse, sem noção mesmo); outro bocado oferecendo rapé com uma miríade de ‘temperos' diferentes que vão do ‘tradicional' até o mais exótico (e ilícito, conforme o Código Penal ainda em vigência).

Vou em frente… uma figura está oferecendo ‘Daime' (Ayahuasca) por um precinho bacana (hã!!!???), informando que foi preparado aqui no Juruá e ‘chegou faz pouco tempo' em sua cidade, só não posso revelar a localização, afinal, vai que algum de meus leitores caia na tentação e entre numa roubada dessas, afinal, como já citei em outros momentos, sou de opinião que certas coisas não se vendem,  a ayahuasca é uma delas e, quem assim procede, está traficando e não ajudando em nada  espiritualidade das pessoas.

Vejo que o mundão continua o mesmo após o carnaval, bem, afinal o que eu esperava? Será que alguma coisa poderia mudar em uma semana que eu não interagi com ele? Que inocência…. Não! Pera! Não é inocência, e, sim, desejo que as coisas mudassem mesmo, evoluíssem um pouquinho, pelo menos no tocante ao mundo ‘circuito espiritual-shamânico-pajelísitco-holístico-terapêutico-e o escambau a quatro'.

A coisa tá chegando num ponto insano, num processo de abestalhação que fica difícil saber (pelo menos para a maioria) o que é ‘fake'  e o que é verdadeiro, sem encenação e ostentação. Isso sem falar dos casos de estupro que agora vem à luz, após as revelações terríveis envolvendo o João ‘que não era de Deus', e que envolvem um bocado de gente que após um ritual envereda na parte sexual da ‘emanação' que vivenciaram e, tristemente, se aproveitam do momento. Assunto terrível esse – bem complexo também – que para meu assombro já vem enlameando as barras de calça e penachos de algumas figuras energúmenas que se alardeiam como ‘shamãs' e ‘tarapeutas' espirituais (e mundo ) afora. Aguardemos os próximo capítulos desse conto de terror.

Nesse processo insano de abestalhação geral aumentaram os casos de gente se passando por indígena do Acre, ou, pior, se travestindo de falso conhecedor da tradição para se dar bem financeiramente, seja traficando as medicinas, seja ministrando rituais, seja cantando as canções dos txais. Tem cada coisa bizarra que me lembra trechos do filme Coraline e o Mundo Secreto, com um circo de horrores composto por ratos e seres asquerosos e falsos, que ludibriam as mentes mais sensíveis e inocentes que somente estão em busca de algo que faça sentido nesse mundo esquizofrênico e caótico que vivemos.

Cansativo isso… mas… em meio a lama que nos cerca sempre podemos visualizar a beleza e sentir o perfume do jardim que existe logo após o lamaçal. Mas, para isso, é preciso se libertar dessa necessidade de chafurdar como porcos em busca de alimento no meio dessa sujeira toda. É preciso ir em busca da fonte de onde emana as coisas boas e que, muitas vezes, não está muito longe.

É preciso se libertar desse fetiche estereotipado que vem ‘gourmetizando' as práticas espirituais, principalmente as que envolvem a Ayahuasca onde, para a tristeza dos seres sagrados, até os nawa (não-índios) que se dizem espiritualizados estão contribuindo com a devastação ambiental ao adquirirem penachos (cocares) com penas de Gavião Real, e os exibe com todo orgulho, tal qual um caçador que abate um animal num safári (sim, é isso mesmo).

É preciso entender que, em geral, abanar a cara de alguém com uma pena de Gavião Real nada mais faz que jogar um pouco de vento nas fuças da pessoa… e só. O excesso de misticismo só estraga as coisas. Vejo que a cada dia que passa surgem mais presepadas novas, no intuito de garantir a clientela. Tá foda galera… tá de um jeito que fica distinguir as coisas, pois tudo tá parecendo tão igual.

É por essas coisas que me volto cada vez mais para a raiz desse cipoal todo: a tranquilidade, simplicidade e coletividade da aldeia e, sempre que possível, assim como um Fábio Assunção, deixo de lado o lamaçal e vou em busca do jardim, mesmo entendo que, para alcançá-lo terei de dar umas boas braçadas nessa lama toda.

Tô indo Mukani!!!! Tô chegando aí no terreiro dos Shanenawa, na querida aldeia Shane Kaya!!! Ei Carlos Vakainu Shanenawa, guarda um pouco aí do pirão de peixe na tua casa para nós comermos, espero que esse Fábio Assunção não tenha comido tudo! Ei Nainawa Fakë, vai afinando o violão para nós tocarmos um som!!! Tô quase aí…

Boa semana a tod@s e… Shavá Shavá!!!

ANOTE:

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Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, na região do Juruá, Acre.

* Conheça a página do Crônicas Indigenistas no Facebook (clique aqui). Lá encontrará, além de nossos textos, várias e diversificadas informações. Também temos o canal do YouTube: Crônicas Indigenistas – Música Indígena (clique aqui).

Imagem que ilustra esta Crônica: Fabio Assunção, AC 24hs.

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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