Câmara aprova projeto que enfraquece o monitoramento de desmatamento por satélite

CÂMARA APROVA PL QUE ENFRAQUECE O MONITORAMENTO

Câmara aprova projeto que enfraquece o monitoramento de desmatamento por satélite

Ativistas alertam que o projeto enfraquece drasticamente a pollítica ambiental brasileira

Por Arthur Silva/Revista Xapuri

Aprovado na última quarta-feira (20) pela Câmara dos Deputados, o novo projeto  impede a aplicação de embargos e outras medidas cautelares com base exclusivamente em imagens de satélite que detectem alteração na cobertura vegetal. O texto, que integra o pacote chamado de “Dia do Agro” pela bancada ruralista, segue agora para análise no Senado Federal e representa mais um capítulo na disputa fervorosa entre o agronegócio e os órgãos de fiscalização ambiental brasileiros.

O projeto estabelece que, ao ser identificado desmatamento por sensoriamento remoto, o produtor rural deverá ser previamente notificado para apresentar esclarecimentos e documentos antes que qualquer sanção seja aplicada. Para os ambientalistas, a exigência é incompatível com a natureza urgente da resposta ao desmatamento. 

O que muda com o projeto?

  • Proíbe embargos e cautelares baseados somente em imagens de satélite
  • Exige notificação prévia ao produtor antes de qualquer sanção
  • Abre prazo para que o autuado apresente esclarecimentos e documentos
  • Impede destruição imediata de máquinas flagradas em desmatamento
  • Aprovado como parte do pacote “Dia do Agro” da FPA na Câmara

O que está em jogo?

Parlamentares contrários ao projeto apresentado esclarecem que mais de 90% dos casos de desmatamento na Amazônia Legal são identificados por monitoramento remoto. Sistemas como o DETER e o PRODES, operados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), formam a espinha dorsal da fiscalização ambiental brasileira e permitem respostas rápidas a infrações que, sem intervenção imediata, se tornam irreversíveis.

A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) foi direta ao avaliar o impacto da medida: “90% do monitoramento de todo desmatamento na Amazônia Legal é feito por monitoramento remoto. Em situação de desmatamento, tem que atuar imediatamente.” A parlamentar alertou ainda que o projeto cria um duplo obstáculo ao exigir notificação prévia e ao proibir a destruição de máquinas flagradas em ação.

A lógica perversa por detrás do Projeto

Com o discurso da “defesa”, o projeto de lei tenta mascarar uma perspectiva que para a política nacional não pode passar despercebida. É inegável que quanto mais eficiente for a ferramenta de fiscalização, mais obstáculos se criam para usá-la. O monitoramento por satélite não é uma tecnologia experimental. É um sistema consolidado, reconhecido internacionalmente e que permitiu ao Brasil construir uma das mais sofisticadas redes de controle do desmatamento do mundo. Exigir notificação prévia antes de qualquer sanção baseada nessa tecnologia não é garantir o contraditório, mas anunciar ao infrator que o embargo está a caminho.

É preciso que fique claro que o desmatamento não espera burocracia. Uma área devastada hoje não voltará a ser floresta amanhã. A urgência da resposta é, ela própria, parte do instrumento de proteção. Retirar essa urgência é esvaziar o instrumento, independentemente de qual nome se dê à medida.

Posicionamento do MMA

Em nota, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima se posicionou contrário a este e aos demais projetos apresentados frente ao chamado “Dia do Agro”. O MMA argumenta que os projetos apresentados impactam fortemente todos os setores da sociedade, inclusive o agronegócio: “Os projetos têm o potencial de prejudicar o próprio setor do agronegócio, que vem expandindo sua produtividade e capilaridade nos últimos anos – desde 2023, foram quase 600 novos mercados abertos em todo o mundo – ao mesmo tempo em que o desmatamento foi reduzido em 50% na Amazônia e em 32% no Cerrado (dados de 2025 em comparação a 2022), de acordo com o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).”

Além disso, o texto apresenta de forma detalhada o impacto de cada um dos cinco projetos aprovados na instância do Congresso Nacional. João Paulo Capobianco, Ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, argumentou que a gravidade deste movimento está exatamente no impacto sobre a gestão ambiental em proporções nunca vistas: “É um retrocesso inimaginável para um país considerado detentor de uma legislação ambiental das mais avançadas do mundo. Não poderíamos imaginar que o Brasil, no século XXI, assistiria a essa degradação da lei para atender interesses específicos, de setores que querem seguir operando de forma irresponsável em relação à conservação ambiental”.

Com o aumento significativo de casos de desmatamento e de precarização dos povos da floresta, o projeto combina significativamente com uma cadeia de sanções que colocam o Brasil numa rota rumo à precariedade ambiental. Não há planeta B! É preciso barrar o desmatamento e para isso, os órgãos de controle e suas respectivas tecnologias precisam ser respeitadas. 

Capa: Orlando K Junior/Divulgação/Agência Brasil

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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