AS MENINAS E AS MULHERES QUE PAVIMENTAM OS CAMINHOS

AS MENINAS E MULHERES QUE PAVIMENTARAM OS CAMINHOS

SEM ELAS NÃO HÁ ORGULHO: AS MENINAS E MULHERES QUE PAVIMENTARAM OS CAMINHOS

Chegou junho! O mês em que as cores do arco-íris invadem as ruas de todo o mundo e o eco é uníssono para a promoção e garantia dos direitos à população LGBTQIAPN+. É um momento fundamental para que as bases políticas reflitam os interlaces das questões de orientação sexual e identidade de gênero em face do desmonte da vida na periferia do capitalismo.

Por Arthur Wentz e Silva

Dado o mote de observar as conquistas recentes e traçar rumos para futuras guerras, não podemos, entretanto, nos negar o dever de revisitar nossa história e de refletir sobre os passos que temos dado.

Se pensarmos em nossa história como movimento, um aspecto não deve nunca passar despercebido: o papel da mulher como linha de frente na formulação, defesa e luta incansável pelas conquistas de que usufruímos hoje. Seja no que o feminismo garantiu como direito universal para todos os indivíduos do mundo, ou até na especificidade do atravessamento das relações durante a crise de HIV/Aids nos anos 1980 e 1990, o papel das mulheres na construção de um novo tempo é inegável.

Em primeiro lugar, compreender como a história, a memória e os percursos que nos trazem aqui nos lembram a utopia certa de se caminhar, ou seja, um mundo onde possamos existir sem medo, expressando nossos afetos e individualidades.

Já no segundo plano, não menos importante, fazer uma reflexão sobre a importância inegável e legitimada das meninas e mulheres, lésbicas, bissexuais, transexuais, na garantia da vida de todos e todas nós. Este é um lugar de interação, de debate e que deve possibilitar enxergar aquilo que nos é negado: a tessitura da vida. 

HISTÓRIA: SUBSTANTIVO FEMININO

Sabemos bem que a história é a história e que basta a observarmos com profundidade para termos dimensão ampla dos movimentos bruscos da vida como um todo. Entretanto, há um risco se não tencionamos determinadas perspectivas da chamada historiografia oficial. Isso porque sabemos que estaremos com certo risco de sermos colocados frente a frente com pressupostos que desconsiderem todo o acúmulo de relações e desígnios dados por um sistema cruel de manutenção do poder.

Nessa órbita, romper o véu patriarcal significa de modo insurgente compreender em que momento dobramos a história para desfavorecer, ignorar e apagar o nome de quem é o início da garantia de nossas existências. Basta um descuido e pronto, a (falsa) história se torna um instrumento profundo de fetichização de nossos caminhos e supervalorização dos corpos privilegiados. Assim ocorre com a historiografia do movimento LGBTQIAPN+. É como se a história das mulheres que bravamente lutaram estivesse à mercê do protagonismo forçado de homens, muitas vezes heterossexuais.

Tânia Navarro-Swain nos provoca sobre o lugar das mulheres lésbicas na historiografia LGBTQIA+ não só no caso brasileiro, mas mundial. Sua perspectiva aponta para um caso muito oblíquo, a política de esquecimento. A historiadora defende que esse silenciamento não é algo aleatório, mas sim uma estratégia que garante a instituição da heteronormatividade. Ou seja, na concepção da construção do espectro da orientação sexual, a visão da mulher lésbica é, não apenas reificada, mas também coisificada. De um lado, no mundo heterossexual, o não reconhecimento como mulher e de outro, na comunidade LGBTQIAPN+, a negligência e o não lugar.

Hoje, essa história é regada pelo sangue e pela coragem de mulheres como Luana Barbosa, que em 2016 teve sua vida ceifada pela brutalidade policial por reivindicar o direito de ser revistada por uma mulher, e Marielle Franco, cuja execução em 2018 tentou silenciar uma voz que unia os corpos pretos, periféricos e LGBTQIAPN+.

SEM ELAS NÃO HAVERIA AMANHÃ

Falar da crise do HIV/Aids nas décadas de 1980 e 1990 é, invariavelmente, falar de uma noite escura onde o Estado brasileiro e a medicina oficial operaram sob a égide do descarte. Enquanto o senso comum e a imprensa se deliciaram com o termo abjeto “câncer gay”, as mulheres homossexuais habitavam um paradoxo perverso: eram consideradas clinicamente imunes, o que as empurrou para uma invisibilidade política absoluta nas pautas de prevenção, enquanto, na prática, tornavam-se a coluna vertebral da sobrevivência humana da nossa comunidade.

É preciso tensionar essa história: as mulheres não foram apenas acompanhantes. Elas operaram o que a antropologia chama de interlocuções da dor. Em um tempo em que o diagnóstico era uma sentença de morte social imediata, foram as mãos femininas que desafiaram a lógica do contágio para oferecer o toque, o beijo e o cuidado que o patriarcado negava.

Enquanto homens gays eram expulsos de suas casas por pais militares ou famílias conservadoras, eram as amigas lésbicas que faziam o papel de ponte de redenção, mediando, em muitos casos, o retorno desses filhos ao seio familiar. Em outra perspectiva, eram também ativistas feministas, celebridades do mundo da música e das artes no geral quem dava suporte, sobrevivência estética e acolhimento a muitos desses indivíduos, abdicados do direito à saúde no contexto de crise.

A criticidade aqui reside em entender essa solidão compartilhada como uma estratégia de resistência. Mulheres como Patti Smith e Paula Dip foram as guardiãs de memórias que o sistema necropolítico desejava apagar. Tratando, nesse sentido, o luto como um evento crítico que forjou a identidade de uma geração, provando que a dor, quando atravessa o corpo do outro, torna-se um compromisso coletivo.

Não há aqui tentativa alguma de forjar certo elogio romântico ao cuidado feminino, o que se precisa escancarar em todos os espaços é que o movimento LGBTQIAPN+ só sobreviveu à sua maior tragédia porque as mulheres se recusaram a aceitar a morte da alma imposta aos seus pares. Foram os corpos femininos os responsáveis por tecer redes de suporte e afeto que subverteram a própria lógica epidemiológica, ensinando-nos que a solidariedade é, acima de tudo, a tecnologia de poder mais eficaz contra um Estado que nos quer mortos. Se hoje caminhamos sob o sol de junho, é porque elas seguraram a nossa mão no escuro absoluto daquelas décadas.

 ÀS MENINAS E MULHERES QUE NOS ACOLHEM

Ainda que o lugar aqui esteja completamente ligado a figuras femininas que estão intimamente ligadas ao movimento LGBTQIAPN+, ou seja, mulheres transsexuais e travestis, bissexuais e lésbicas, é importante um movimento. Para um homem gay, é impossível, inevitável e inconcebível compreender qualquer experiência vital sem o apoio irrestrito de meninas e mulheres que fazem um trabalho muito além do cuidado em relação a nós.

Partindo do postulado empírico para o dia a dia, a vida que grita no cotidiano, é preciso considerar que a brevidade da vida seria muito mais penosa sem o acolhimento de nossas amigas, sem a aceitação das matriarcas que celebram nas ruas em coletivos como o Mães Pela Diversidade e tantos outros e, de maneira igual, às artistas que tiram nossas dores do mudo e fazem delas, a partir de seus canais, o lugar adequado para se orgulhar.

São as meninas e mulheres que fazem a vida verdadeiramente existir, e no encontro desencontrado com nós mesmos é fundamental repensar a rota, repensar os caminhos. É preciso estar lado a lado no combate à misoginia, à violência política de gênero e consequentemente à homofobia, à transfobia e à lesbofobia. Homens gays precisam estar cercados de mulheres, cercados de desconfortos provocados exatamente por elas, não para construirmos uma sociedade ufanista que certamente existe em nossas utopias, mas para que consigamos retomar a rota da história.

Às meninas e mulheres, lésbicas, bissexuais, transsexuais e travestis, e até mesmo às tão sinceras aliadas de nossa luta, que saibamos reconhecer: não há orgulho sem vocês!

 

 

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Capa: Agência Brasil. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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