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A embaixatriz Sônia Guajajara na TIME

A embaixatriz Sônia Guajajara na TIME

A embaixatriz Sônia Guajajara na TIME

“Quem lucra com o capitalismo é um trapaceiro, que rapidamente se torna milionário” (John dos Passos, O Grande Capital,1936)…

Via José Ribamar Bessa/via Taquiprati

Time foi e continua sendo uma revista deles. Deles que eu digo é do grande capital financeiro que, em companhia de parte da mídia brasileira, há quatro anos apoiou a eleição do Coiso – um Zé Ruela – sob a garantia de o Ministério da Economia ser entregue ao Chicago Boy Paulo Guedes, que havia estagiado no Chile de Pinochet. The right man in the right place.

Por que então uma revista, que joga no time DELES, entrevistou Lula com foto na capa apresentando-o como “o líder mais popular do Brasil”? E agora escolhe Sônia Guajajara, gente NOSSA, como uma das 100 pessoas mais influentes no mundo em 2022. Seria Sônia the right woman in the wrong place? Mudou o Natal ou mudei eu?

Se a Time fosse “comunista”, nem precisava explicar. Mas é o contrário disso. Por que então não colocou o Coiso na capa de uma de suas edições? Por que não incluiu no rol dos influentes algum dos quatro zeros, um deles ex-quase-futuro embaixador do Brasil nos Estados Unidos? Afinal, na lista dos selecionados não há apenas santos, figuram também bandidos.

É que a revista constatou que a família Coiso, embora de direita – o que agradava os editores – é composta por um conjunto de zeros à esquerda – o que os torna inúteis na defesa dos interesses do capital. A má gestão do Zero-Mor evidenciou sua incompetência em atender as exigências do mercado.

Até mesmo o capitalismo selvagem tenta guardar as aparências, exigindo um mínimo de compostura, o que falta ao despreparado Coiso, cujo discurso negacionista defende a barbárie. “A vacina pode causar aids” – ele garantiu no momento em que o mundo lutava contra a covid-19. Somam-se a isso as boçalidades truculentas sobre clima, Amazônia, garimpo, homossexuais, mulheres, índios, quilombolas, liberação de armas, racismo, ataque às urnas eletrônicas – as mesmas que o elegeram junto com os três zeros rachadinhas.

Sinfonia americana

Time%20Sonia%20GuajajaraNão foi o inútil do Coiso que a mídia ajudou a eleger, mas o Paulo Guedes, fiel escudeiro do Mercado. Tal situação nos remete ao romancista estadunidense John dos Passos, autor de “O Grande Capital” – uma “sinfonia americana”, que retrata a hegemonia do capital monopolista e traz a biografia de personagens pobretões de origem humilde como Sônia e Lula.

Dois brasileiros figuram na lista das personalidades que mais influenciaram a vida no planeta em 2022: além de Sônia Guajajara, o pesquisador Túlio de Oliveira, diretor de Centro de Inovação Epidemiológica da África do Sul, que faz parte da equipe responsável pela detecção da variante Ômicron da Covid-19. Ambos selecionados como pioneiros contribuíram efetivamente para debater e esclarecer graves problemas que afligem a humanidade.

Os dois estão na companhia de 98 personalidades distribuídas em seis categorias: artistas, inovadores, titãs, líderes, ícones e pioneiros. Entre os líderes aparecem Zelensky, presidente da Ucrânia, Putin, presidente da Rússia, Gabriel Boric, presidente do Chile, além de Ketanji Jackson, a primeira mulher negra nomeada para a Suprema Corte dos Estados Unidos.

– “É uma enorme honra estar com a líder indígena, Sônia Guajajara, na lista dos 100 mais influentes da revista Time. Vamos trabalhar para um Brasil melhor que respeite a ciência, a vida, a população indígena e a natureza” – publicou Túlio no Twitter.

Mãe de três filhos – Mahkai, Yaponã e Y’wara – Sônia encontrou tempo para participar de várias frentes de luta, que a tornaram conhecida dentro e fora do movimento indígena. Durante seis anos, dirigiu a Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA), foi vice-presidente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e se tornou coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Consolidou projeção nacional ao ser ovacionada, em dezembro de 2015, por cerca de 1500 indígenas de 139 etnias participantes da I Conferência Nacional de Política Indigenista em Brasília. Na ocasião, cobrou com sucesso da presidente Dilma uma posição contra a PEC 215 que inviabilizava a demarcação das terras indígenas.

A nossa embaixatriz

Sonia%20ONUDepois disso, Sônia coorganizou a Primeira Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília, em 2019, durante a qual foi criada a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA). No mesmo ano liderou a Jornada Sangue Indígena Nenhuma Gota Mais, que percorreu 12 países da Europa, denunciando violações cometidas pelo Governo do Coiso. Integra ainda o Conselho da Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais do Brasil, iniciativa de um Programa da ONU.

Como nossa embaixatriz, ela já percorreu mais de 30 países, levando sempre um discurso em defesa da floresta, das culturas e línguas indígenas e da vida. Em 2008, participou do Fórum Permanente da ONU, em Nova Iorque, onde defendeu que “o centro do mundo é a Amazônia, pois se acabarem com as nossas matas, riquezas naturais, não haverá Estados Unidos ou Nova Iorque que sobreviva”.

Ela nos representou em diversos eventos internacionais, entre os quais o corrido em Cancún, no México, em 2010, ocasião em que entregou pessoalmente o Prêmio Motosserra de Ouro à senadora Kátia Abreu, que presidia a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), acusada por ambientalistas de querer detonar o Código Florestal.

Em defesa do meio ambiente, contra o desmatamento e a poluição dos rios, sua voz se fez ouvida no Conselho de Direitos Humanos da ONU e nas Conferências Mundiais do Clima (COP) de 2009 a 2017, além de ecoar em outros órgãos e instâncias internacionais, entre elas o Parlamento Europeu.

sonia guajajara brasiliaSuas críticas à política indigenista e ambiental do Governo Federal feitas em um documentário amplamente difundido no Brasil e no exterior fizeram com que fosse intimada pela Polícia Federal a prestar depoimento. Esse claro ato de censura foi arquivado por falta de consistência jurídica.

No texto para a revista Time sobre a trajetória de Sônia Guajajara, Guilherme Boulos destacou o fato de que Sônia, filha de pessoas iletradas, teve que sair de casa aos dez anos de idade para trabalhar, mas conseguiu se formar em uma universidade, desafiando as estatísticas.

Quer mais ou é suficiente para perceber que a revista reconheceu essa influência de Sônia Guajajara na discussão que rola no mundo? Ali onde se extermina índios, pretos, quilombolas e pobres, ali onde se queima a floresta e se mata os rios, ali onde agentes da Polícia Rodoviária Federal pagos pelo contribuinte torturaram e assassinaram Genivaldo, que era de Jesus e de todos os Santos, ali ecoa a voz de Sônia Guajajara ouvida nos cinco continentes. Ela, Ailton Krenak, David Yanomami nos representam.

Dezembro de 2015. Brasília.  Conferência Nacional de Política Indigenista. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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