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WhatsApp: uma relação não se acaba assim!

WhatsApp: uma relação não se acaba assim!

Por Fabrício Carpinejar

Via contioutra

Querida leitora,

Não se termina uma relação por WhatsApp. Mesmo para quem namora, já seria uma ofensa. Mas para quem divide o mesmo teto, então, é covardia. Não custava nada se encontrar, olho no olho, e explicar a tomada de consciência por um caminho diferente.

Um relacionamento não é unilateral. É uma construção a dois. Ainda que seja uma decisão particular, envolve uma outra pessoa, que merece empatia e explicação. Não é escrever algumas palavrinhas, virar as costas e deu. Não tem como ser egoísta na despedida e simplesmente abandonar a companhia porque não quer mais.

Não quer mais, por quê? Qual foi a mudança? O que aconteceu para se pensar e sentir diferente?

A separação também precisa ser elaborada, como um projeto de distanciamento gradual a ser feito com cuidado e respeito. Para ninguém se sentir descartado e posto no lixo.

Assim como se começa a história pessoalmente, deve-se encerrá-la pessoalmente. Por uma questão de honra.

Ele terminou por WhatsApp porque tem medo de se enrolar nas justificativas? Ora bolas, é um adulto com livre-arbítrio. Decidiu sozinho, que comunique a saída para que aquele que ficou possa se organizar.

Ele terminou por WhatsApp porque tem medo de faltar coragem na hora? Não se case se não sabe assumir as consequências de suas atitudes.

Ele terminou por WhatsApp porque tem medo da choradeira e das cobranças? Não conheço nenhuma separação fácil. O luto é um reconhecimento de que o tempo dividido não foi tempo perdido.

Evitar o encontro revela culpa (fiz algo de errado e não quero contar) e indica claramente que já está envolvido com uma nova pessoa. É infidelidade a ser mascarada.

De onde tiro essa conclusão? Ou ele está pretendendo se ver livre com rapidez para começar oficialmente um romance (e deixar a ideia de que o flerte não surgiu durante o relacionamento) ou alguém por detrás dele vem cobrando uma resposta.

Caso não seja traição, não há motivos para se esconder e ser mais um foragido do amor, de identidade falsa, perdido por aí.

O único caminho é apertar a campainha, devolver as chaves da casa e do coração e proteger a dignidade da memória.

Abraço,
Fabrício Carpinejar

Fonte: https://www.contioutra.com/nao-se-termina-uma-relacao-por-whatsapp-fabricio-carpinejar/


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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