DUAS VERTENTES SOBRE O MITO DE NARCISO

DUAS VERTENTES SOBRE O MITO DE NARCISO

DUAS VERTENTES SOBRE O MITO DE NARCISO

O mito de Narciso carrega diversas nuances que atravessam o tempo e continuam ecoando na maneira como nos relacionamos conosco e com os outros

Por Kaluã Mendes

Relembrando a versão mais conhecida da mitologia grega, Narciso era um jovem de beleza extraordinária, capaz de encantar todos ao seu redor. Um dia, ao se debruçar sobre um lago e se admirar no próprio reflexo, acaba enfeitiçado por sua imagem, mergulha nas águas e morre afogado. A história, além de trágica, inspirou o conceito de narcisismo, termo usado até hoje para descrever um comportamento marcado pela grandiosidade, pela busca por admiração e pela falta de empatia.

DUAS VERTENTES SOBRE O MITO DE NARCISO
Ilustração – “Narciso” do artista italiano Caravaggio, datada de aproximadamente 1597–1599.

No entanto, conheci uma releitura dessa história por meio do escritor brasileiro Paulo Coelho, que, por sua vez, se inspirou em Oscar Wilde. Nessa versão, o foco se desloca de Narciso para o lago, antes apenas cenário, agora um personagem sensível e enlutado. Suas águas, antes doces, tornaram-se salgadas de tanto chorar a morte de Narciso. Intrigadas, as deusas do bosque questionam o lago sobre tanta dor, esperando ouvir uma confissão de amor ou fascínio. Mas o que recebem é uma revelação surpreendente:

“Eu não chorava por Narciso… eu chorava porque, cada vez que ele se deitava à beira de minhas margens, eu podia ver, refletida no fundo de seus olhos, a minha própria beleza”. A partir dessa reinterpretação, duas vertentes se destacam.

 Primeira Vertente: Narcisismo espelhado – Reflexo de si no outro 

A história aponta para uma espécie de vaidade compartilhada. Narciso amava a imagem refletida na água sem saber que era sua própria. O lago, por sua vez, amava o reflexo de si mesmo nos olhos de Narciso. Ambos estavam encantados por suas próprias projeções.

Essa leitura revela o quanto, muitas vezes, o amor e o fascínio que julgamos sentir pelo outro são, na verdade, formas de nos vermos refletidos, de nos reconhecermos belos, dignos, importantes. O mito, então, se torna uma metáfora sobre relações humanas baseadas em espelhos. Amamos não o outro, mas aquilo que ele nos devolve de nós mesmos.

Segunda Vertente: Carência do sentimento – O luto pela ausência do sentido 

Na segunda vertente, o choro do lago não é egoísta, mas melancólico. Ele não lamenta Narciso como indivíduo, mas a sensação que a presença dele despertava. É a dor de não mais sentir o que se sentia.

Mitologia Classica Narciso

Essa leitura propõe que, por vezes, o luto que carregamos não é pela pessoa que se vai, mas pela emoção que parte junto com ela. É a ausência de sentido, o vazio deixado por um sentimento intenso que já não existe mais. O lago, aqui, simboliza a alma humana diante da perda de algo que a fazia viva e sensível.

Arremato que, ao recontar o mito de Narciso sob uma nova ótica, essa narrativa nos oferece uma metáfora rica e multifacetada sobre a natureza humana. Seja pelo viés do narcisismo espelhado ou pela perda do sentimento, o lago que chora nos confronta com uma pergunta essencial:

Do que realmente sentimos falta quando alguém se vai? Seria do outro ou daquilo que ele despertava em nós?

20260501 114425 1.jpg 1Kaluã Mendes – Designer gráfico, escritor e estudante de cinema. Capa: Eco e Narciso. Óleo sobre tela de John William Waterhouse (1849 / 1917)

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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