DUAS VERTENTES SOBRE O MITO DE NARCISO
O mito de Narciso carrega diversas nuances que atravessam o tempo e continuam ecoando na maneira como nos relacionamos conosco e com os outros
Por Kaluã Mendes
Relembrando a versão mais conhecida da mitologia grega, Narciso era um jovem de beleza extraordinária, capaz de encantar todos ao seu redor. Um dia, ao se debruçar sobre um lago e se admirar no próprio reflexo, acaba enfeitiçado por sua imagem, mergulha nas águas e morre afogado. A história, além de trágica, inspirou o conceito de narcisismo, termo usado até hoje para descrever um comportamento marcado pela grandiosidade, pela busca por admiração e pela falta de empatia.

No entanto, conheci uma releitura dessa história por meio do escritor brasileiro Paulo Coelho, que, por sua vez, se inspirou em Oscar Wilde. Nessa versão, o foco se desloca de Narciso para o lago, antes apenas cenário, agora um personagem sensível e enlutado. Suas águas, antes doces, tornaram-se salgadas de tanto chorar a morte de Narciso. Intrigadas, as deusas do bosque questionam o lago sobre tanta dor, esperando ouvir uma confissão de amor ou fascínio. Mas o que recebem é uma revelação surpreendente:
“Eu não chorava por Narciso… eu chorava porque, cada vez que ele se deitava à beira de minhas margens, eu podia ver, refletida no fundo de seus olhos, a minha própria beleza”. A partir dessa reinterpretação, duas vertentes se destacam.
Primeira Vertente: Narcisismo espelhado – Reflexo de si no outro
A história aponta para uma espécie de vaidade compartilhada. Narciso amava a imagem refletida na água sem saber que era sua própria. O lago, por sua vez, amava o reflexo de si mesmo nos olhos de Narciso. Ambos estavam encantados por suas próprias projeções.
Essa leitura revela o quanto, muitas vezes, o amor e o fascínio que julgamos sentir pelo outro são, na verdade, formas de nos vermos refletidos, de nos reconhecermos belos, dignos, importantes. O mito, então, se torna uma metáfora sobre relações humanas baseadas em espelhos. Amamos não o outro, mas aquilo que ele nos devolve de nós mesmos.
Segunda Vertente: Carência do sentimento – O luto pela ausência do sentido
Na segunda vertente, o choro do lago não é egoísta, mas melancólico. Ele não lamenta Narciso como indivíduo, mas a sensação que a presença dele despertava. É a dor de não mais sentir o que se sentia.

Essa leitura propõe que, por vezes, o luto que carregamos não é pela pessoa que se vai, mas pela emoção que parte junto com ela. É a ausência de sentido, o vazio deixado por um sentimento intenso que já não existe mais. O lago, aqui, simboliza a alma humana diante da perda de algo que a fazia viva e sensível.
Arremato que, ao recontar o mito de Narciso sob uma nova ótica, essa narrativa nos oferece uma metáfora rica e multifacetada sobre a natureza humana. Seja pelo viés do narcisismo espelhado ou pela perda do sentimento, o lago que chora nos confronta com uma pergunta essencial:
Do que realmente sentimos falta quando alguém se vai? Seria do outro ou daquilo que ele despertava em nós?
Kaluã Mendes – Designer gráfico, escritor e estudante de cinema. Capa: Eco e Narciso. Óleo sobre tela de John William Waterhouse (1849 / 1917)










