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Sérgio Ricardo No Teatro Amazonas Com Thiago De Mello

Sérgio Ricardo No Teatro Amazonas Com Thiago De Mello

Por José Ribamar Bessa Freire

 “– Se entrega, Corisco

 – Eu não me entrego não / não me entrego ao tenente

 Não me entrego ao capitão  

Eu me entrego só na morte de parabelo

 na mão.”

Sérgio Ricardo e Glauber Rocha: Deus e o Diabo na Terra do Sol

Foi um dia qualquer de fevereiro de 1978. O poeta Thiago de Mello, que acabara de chegar a Manaus, veio almoçar em minha casa na Rua 3 da Cohab-Am do Parque Dez, trazendo a tiracolo o cantor Sérgio Ricardo.

Os dois, em turnê pelo país, iriam apresentar no Teatro Amazonas o show Faz Escuro Mas Eu Canto, que havia estreado no Teatro Opinião do Rio sob a direção de Flávio Rangel. Um declamava e o outro cantava aquelas canções de protesto que haviam conseguido burlar a censura.

Com Thiago, havíamos atravessado juntos a fronteira do Uruguai rumo ao exílio. Mas o Sérgio Ricardo eu não conhecia pessoalmente, só de fama. Ele era o autor de músicas admiráveis, especialmente das trilhas sonoras do filme de Glauber Rocha Deus e o Diabo na Terra do Sol e da peça de Joaquim Cardoso Coronel de Macambira, encenada por Amir Hadad no Teatro Universitário Carioca do Rio. Além de alcançar certa “celebridade” no Festival da Record, ao quebrar o violão no palco e atirá-lo na plateia,

Na época não se usava ainda o verbo tietar, mas já se tietava, Tive de me conter e disfarçar o deslumbramento, ao ver entrar em minha casa, num bairro periférico de Manaus, o cantor e cineasta corajoso e lúcido, comprometido com as lutas sociais, cuja figura era agora enriquecida no plano pessoal pela manifestação de ternura à minha filha Maria que, com pouco mais de três anos e com um “n” a menos, lhe lembrava sua filha Marina, da mesma idade, de quem confessou estar morrendo de saudades.

VOU RENOVAR

Convivemos alguns dias. Com o poeta Luiz Bacellar e a jornalista Ana Helena, mãe do Thiaguinho, servimos de “cobaia” no ensaio realizado no palco do Teatro Amazonas, um teste para ver o que funcionava e o que devia ser modificado.

Tudo funcionou naquela noite de gala do Teatro Amazonas. O espetáculo, uma manifestação artística e política de resistência à ditadura, foi dedicado ao ex-ministro da Educação do governo Goulart, Darcy Ribeiro, ali presente em carne e osso. Foi uma feliz coincidência ele estar de passagem por Manaus, ministrando um curso a indigenistas e agentes de pastoral. Em um camarote de honra – lugar, aliás, que adorava ocupar –, Darcy foi ovacionado pelo público. Saudades dos tempos em que um ministro da Educação tinha a dita cuja, além de experiência no ramo e compromisso com os saberes.

O público formado em sua maioria por estudantes e ex-estudantes foi particularmente caloroso e acompanhou o show com entusiasmo. Thiago recitou seus poemas intercalados por músicas cantadas por Sérgio Ricardo, algumas que ficaram na minha lembrança: Sina de Lampião, Semente, Canto Americano e Calabouço, inspirada no estudante paraense Edson Luís, assassinado numa passeata no Rio de protesto contra o fechamento do restaurante estudantil:

Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um brasileiro de alma vazia.

O final foi apoteótico, o público aplaudia de pé e cantava o estribilho “Vou renovar”.

Não lembro se Flicts fez parte do repertório do show no Teatro Amazonas, creio que não, nem sei se naquela altura Sérgio Ricardo já havia sido convidado por Ziraldo para musicar todo o seu livro que encanta as crianças nas vozes do MPB-4 e do Quarteto em Si. Sérgio Ricardo também cantarolava:

Quando volta a primavera
E o jardim e o parque
Se cobrem de cores
Mas nenhuma cor ou ninguém
Quer brincar
Com o pobre Flicts

thiago41

DE VIOLÃO NA MÃO

Sérgio Ricardo brincou com Flicts e deixou algumas sementes em Manaus, adubadas por um menino amazonense, Paulinho Kokai, hoje professor na Universidade Federal de Goiás:

  “Eu tinha 11 anos quando recebi convite do meu tio para ir ao Teatro Amazonas assistir ao recital do poeta Thiago de Melo, que eu ainda não sabia quem era. Como nunca havia entrado no Teatro Amazonas, fiquei deslumbrado com a beleza daquele santuário, que não ofuscou o espetáculo de poesia e música. Sim, além dos poemas de Thiago, apresentava-se Sérgio Ricardo. “Se entrega Corisco! Eu não me entrego não!”. Lembro bem do refrão cantado pelo teatro inteiro. Aquele momento ficou gravado na minha memória. Acredito que ali despertou minha alma de artista”.

Paulinho Kokai, que virou mesmo artista e cantou muitos anos nos bares da vida na noite manauara, continuou:

“Sergio Ricardo marcou minha vida. As canções fortes e intensas, a personalidade marcante, me impressionaram. Mais tarde, já maduro, assisti os filmes de Glauber Rocha, os quais tinham na trilha as canções inesquecíveis da minha infância. Também assisti muitas vezes a icônica imagem dele quebrando o violão durante o festival da Record, irritado com o público que o vaiava. Eu o seguia nas redes sociais e celebrei até mesmo seu último aniversário no dia 18 de junho, quando muitas pessoas mostraram seu afeto por ele.”

O cantor, compositor, cineasta e artista plástico Sérgio Ricardo, 88 anos, nunca se sujeitou nem ao tenente nem ao capitão, sequer ao Covid-19 que contraiu e do qual se curou sem cloroquina. Mas o coração não aguentou. Vítima de insuficiência cardíaca, ele se entregou, finalmente, à morte nesta quinta-feira (23), de violão na mão, que era sua arma de luta. Ficaram a sua música, sua história, sua lição de vida e a lembrança desse mundo errático:

Tá contada a minha estória
Verdade e imaginação
Espero que o sinhô
Tenha tirado uma lição
Que assim mal dividido
Esse mundo anda errado
Que a terra é do homem
Num é de Deus nem do Diabo (bis)

Por José Ribamar Bessa Freire – Escritor. Gestor do site www.taquiprati.com.br

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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